EXCLUSIVO! Aprendendo e evoluindo com o rapper Renedy

Mc solta o verbo sobre o rap goiano, inspirações e traz revelações inéditas sobre sua caminhada como um rapper 'totalmente descolado'

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“062” é o endereço da nova escola do rappers talentosos. Alguns nomes estão se revelando através de batalhas de freestyle, experiências musicais e parcerias inusitadas em Goiânia. O que dizer de VH (Casero), AfroKing (Blxxds VG), Eduardo Genuíno, Goitacá Escafandrista, Mana Black, entre outras novidades que pode mexer a qualquer momento com a cena nacional… (?). Nessa transição entre o old e o new school, conheça mais sobre Renedy, o rapper “totalmente descolado”.

Há 4 anos, Renedy se lançou no rap distorcendo conceitos juvenis dentro da cultura de rua, driblando vícios e vaidades de todos os tipos que permeiam entre jovens. A canção “Totalmente Descolado” foi como dizer “hey, você não precisa ‘ficar doidão’ ou na moda pra ser massa”.

“Eu fiz essa música em uma ocasião que estavam me zoando pelo fato de eu ser magro, feio e fora dos padrões… Mas eu nunca deixei ninguém me rebaixar pelo meu biotipo, então pensei: ‘já que é pra zoar da minha aparência, deixa que eu mesmo faço isso'”, explicou. Essa canção cheia de identidade é a primeira faixa do primeiro disco dele, intitulado “Este Sou Eu”. Para ele, esta é uma das músicas mais controversas e corajosas que já foi lançada no rap goiano. De fato!

Através deste trabalho inicial, Renedy veio quebrando vários preconceitos com sua música, mostrando que humildade, respeito e compromisso era o que importava nessa caminhada do rap.

“Nunca fui o mais inteligente da turma, mas sempre fui persistente e disciplinado. Eu procuro ser algo relevante e humilde pra todas as pessoas que vivem ao meu redor. Seja com a família, ou com os amigos e com a sociedade em geral, conquistei muito respeito através dessa conduta”, se descreveu.

Renedy é o contrário de Dener (sem o y), o nome verdadeiro do Mc. Dener tem apenas 24 anos, suas referências musicais vão de Milionário & José Rico a Eminem. Nasceu em Goiânia, mora no setor Perim (Região Norte de Goiânia), estudou seus anos letivos em escola pública e se formou em Administração de Empresas.

“Eu sempre achei que eu era adulto e tinha que agir como adulto desde os 13 anos, não sei pq. Podia sei lá ter feito umas merdas, mas sempre o nome RESPONSABILIDADE pesou dentro de mim”, desabafa. Pra equilibrar essa auto cobrança, o rapper usa do bom humor pra se desintoxicar da tensão.

Renedy está comemorando 1 ano do seu segundo disco Vivendo, Aprendendo e Evoluindo – #VAE, cuidadosamente elaborado e um dos trabalhos mais especiais do rap goiano atualmente. Neste pique, o rapper tem feito shows adoidado como membro do coletivo musical Wu-Kazulo.

Na entrevista abaixo, o Renedy fala sobre estes projeto, suas influências e, claro, sobre a cena do rap goiano. Revelações exclusivas! Um entrevista inédita e sincera para aprendermos e evoluirmos juntos. Boa leitura!

VIVENDO, APRENDENDO E EVOLUINDO

Mari Magalhães: Vamos pelo momento. O disco #VAE – Vivendo, Aprendendo e Evoluindo, lançado há 1 ano… conta um pouco sobre a experiência de produzi-lo.

RENEDY: Então, o #VAE é meu segundo disco. O meu primeiro cd foi o “Este Sou Eu” lançado em outubro de 2014. Eu fiquei cerca de 1 ano e meio trabalhando no contexto desse segundo trabalho tá ligado?! Procurando e comprando as batidas corretas que soavam bem em cada canção, escrevendo e detalhando cada música, e selecionando as participações que entrariam pra esse registro.

Esse segundo trabalho teve diversas colaborações de amigos, ídolos e pessoas que eu admiro. Basicamente eu quis juntar tudo isso nesse segundo disco, desde grupos das antigas do rap goiano, até a rapaziada da nova geração. Teve produção do Mortão Vmg, Dj Zion, PDK Beats, Kão beats (que é de São paulo) e o Saggaz Beats, que teve uma participação predominante também, afinal 60% das batidas foram produções dele e a maioria das músicas foram gravadas no home studio que montamos na casa dele.

A arte da capa desse cd foi feita por mim. Todas as fotos de todas as músicas desse disco, incluindo a foto da capa e contracapa foram tiradas pelo fotógrafo Pedro Neto (que inclusive é meu afilhado e um ótimo fotógrafo). Pra quem for conferir pelo site do Youtube, vai perceber que cada música tem a representação de uma foto e todas as canções foram legendadas com muito esforço e dedicação do meu parceiro Daniel da Silva (Dam Caseiro), para serem acompanhadas de forma transparente e clara.

MM: As participações são elementos especiais num trampo como o seu. Você citou acima alguns inclusive… Fale um pouco sobre as escolhas que você teve pra cantar contigo no #VAE.

RNDY: Eu chamei pessoas que hoje são meus amigos, mas acima de tudo referências no rap goiano pra mim, que foi A Tropa H2 e o K´Ment. Realizei o sonho de colocar esses caras no meu disco e foi muito gratificante pra mim. Eu amo o som desses malucos! A rapper Luz Negra na época estava começando a sua caminhada no rap, então achei importante incluir ela também nesse cd. O Slarky Mc fez parte da minha caminhada nos shows do primeiro disco, então era quase que uma ofensa eu deixá-lo de fora desse segundo. Chamei também dois manos de Aparecida de Goiânia que conheci através dos eventos e das batalhas, que foi o Eduardo Genuíno e o Biall Rorhes. Outra participação importante foi na mixagem e masterização das músicas, que ficou por conta do meu mano Jhonathan, do “Estúdio 1° mandamento”. Fazíamos faculdade juntos na época, aí lá combinamos tudo e passamos alguns meses no estúdio dele acertando os últimos detalhes de cada música. Foi um período bem desgastante, mas importantíssimo.

Click: Abner Marcelo

MM: Renedy, quero começar de fato essa entrevista falando sobre vida… Você fala muito disso no seu disco, mensagem de superações, de força, de buscar o caminho, a paz, o certo pelo certo… Tem muitos ainda na escuridão perdido, desprendido, entregue no mundo. Você certamente jé viu isso de perto. O que falta pra essas pessoas?

RNDY: Falta amor, falta abraços, falta compreensão e atenção, falta diálogo…falta respeito, falta igualdade, oportunidade.. e acima de tudo, falta exemplos! Tudo isso influencia pra que as pessoas se percam tentando preencher seus vazios da forma mais agressiva possível. Boa parte recorrem às drogas e até mesmo ao suicídio para tentar fugir dessa realidade e se anestesiar, o que é bastante preocupante. Se as pessoas não procuram esperança em Deus, sinceramente não sei onde encontrarão paz.

MM: De onde vem tanta fé?

RNDY: Eu me espelho bastante nas crianças sabe, porque a pureza delas realmente é algo que me deixa encantado. Eu gosto de abordar esses temas porque na minha mini-turnê que fiz nos bairros periféricos de Goiânia por exemplo, ao finalizar o show, as pessoas me abraçavam e agradeciam imensamente pelas músicas, e aquilo me fazia refletir bastante sabe?! Se você for parar pra pensar, as músicas que vangloriam o adultério, a embriaguez, a vaidade e o não compromisso estão em ascensão! E quando você foge desse contexto e passa a falar sobre o sentimento da alma de quem sofre com a realidade que vive ou é infeliz mesmo sendo bem estruturado, é uma sensação totalmente adversa ao que se está acostumado a ver. Boa parte das músicas que eu ouvia quando eu pegava 3 ônibus lotados pra ir trabalhar e estudar, me encorajavam e davam esperança pra eu seguir em frente e não desistir, e eu sempre quis colaborar de alguma forma para retribuir isso.

MM: Pelas suas músicas, hoje você se considera um exemplo a ser seguido?

RNDY: Resolvi fazer canções que fizessem as pessoas se alegrarem, se sentirem seguras e, ao mesmo tempo, refletirem e mudarem o seu próprio interior pra melhor, pra depois querer mudar o mundo. Eu tô longe de ser um exemplo a ser seguido, mas se eu puder fazer alguma coisa pra ajudar eu faço, e acredito que na música eu posso colaborar pelo menos 1% na vida das pessoas. A música tem esse poder de conexão entre o artista e o ouvinte. E eu procuro passar toda a minha positividade e energia possível pra quem me ouvir se sentir bem.

MM: No rap fala-se muito de família né… O que é família pra você nesse contexto?

RNDY: Família é o meu alicerce, minha base, meu tudo! Se você é da cultura hip hop, se você faz rap e não respeita a sua família, pra mim você está no lugar errado.

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INSPIRAÇÕES ECLÉTICAS E SOCIAIS. OS PRIMEIROS MOMENTOS

MM: Como é seu processo criativo? O que te inspira?

RNDY: Olha, algumas situações que acontecem comigo e também com outras pessoas me inspiram  bastante. E também, eu adoro assistir palestras, vídeos motivacionais e entrevistas. Boa parte das letras do meu segundo cd foram feitas dentro da sala de aula na faculdade ou dentro do meu quarto, no meu momento solitário… Mas na maioria das vezes eu narro sentimentos meus mesmo. Meu processo de criação depende bastante do meu estado de espírito e de como eu estou psicologicamente naquela ocasião. O rap me dá essa liberdade. O #VAE é um turbilhão de sentimentos, quem escuta esse disco percebe isso. Eu me inspiro em pessoas que fazem o nada ser tudo. Eu me inspiro no trabalhador(a) brasileiro que pega 3 ônibus pra ir trabalhar, pra ganhar um salário mínimo, sustentar os filhos e ainda sorrir todos os dias dizendo graças a Deus por ter saúde, esses sim são verdadeiros artistas! Eu me inspiro em poesias que tocam a alma mesmo, eu me inspiro na honestidade dos meus pais, nas pessoas que lutam pela vida nos hospitais e em quem é simples de coração.

MM: E nessa criatividade toda, quais foram as músicas mais peso de fazer?

RNDY: Algumas das músicas mais marcantes que eu fiz foi a “Super Herói“, que eu fiz em homenagem ao meu avô duas semanas depois do seu falecimento, a “Carta de Jesus” que inicialmente era um trabalho de escola e quando eu fui parar pra pensar, era um som muito forte e que deveria ser registrado no momento certo. A “Totalmente Descolado” que eu fiz em uma ocasião que estavam me zoando pelo fato de eu ser magro, feio e fora dos padrões que a sociedade impõe né, praticamente um bullying. Mas eu nunca deixei ninguém me rebaixar pelo meu biotipo, então pensei: “já que é pra zoar da minha aparência, deixa que eu mesmo faço isso” e aí surgiu ela. Também a “Sinal de Alerta” que foi inspirada numa ocasião onde eu vi um grande amigo meu, que cresceu junto comigo, que eu estava a um tempo sem ver, acender um cigarro e achar que estava abalando com o cigarro na mão, zoar uns meninos lá que estavam perto dizendo que eles não sabiam nem fumar e tal e rir dos muleques sabe… foi uma parada muito forte pra mim, porque eu fiquei realmente decepcionado. Tipo, qual é a vantagem e a beleza naquilo? Era mostrar para os amigos que ele fumava? Que ele era o “pá” porque estava com um cigarro que mata na mão? Nesse dia eu fui embora e ele me gritou de longe “hey, não vai se despedir não?” e eu disse: “Não curto ficar perto de quem acha graça fumar cigarro”. Ele ficou super sem graça na ocasião, porque eu quebrei toda aquela falsa vaidade que estava rolando ali. Quando cheguei em casa, tomei um banho e comecei a escrever, tanto é que primeiro verso dessa música é “Cuidado, aonde você vai, aonde pisa, pra não se machucar demais com essa sua brisa”, e essa música é uma das mais fortes nos shows até hoje!

MM: Você também já participou de muita coisa legal no hip hop nesses anos aí…  Quais os momentos marcantes como rapper até agora?

RNDY: Olha…Tive a honra de participar de algumas cyphers que fiquei muito feliz em ter sido convidado, que foi a Cypher 62 #2, junto com a rapaziada do estúdio DoBeco, de Aparecida de Goiânia, promovida pelo Isaac Metanóia, um dos melhores editores de vídeo do Brasil. A Cypher A.N.E organizada pelos irmãos de Trindade, (Skane e João Vitor Beat). Mas a cypher mais marcante da minha carreira até aqui foi a “The Cypher Hill´s, organizada pelo grupo K’Ment. Foi uma reunião de ídolos meus do rap de Goiânia! Eu estava rodeado de caras que eu via cantar nos eventos, admirava, e falava: “Quero ser igual esses caras”. Então dividir uma rimas com eles foi incrível!

Fiz uma participação especial também com o Grupo Alegria num remix que fizemos da música “Oração“, onde falávamos do quanto o amor fazia a diferença quando alguém estava em condições de enfermidade, e na vida em geral.

MM: Você foi revelação em um festival de talentos, não é? Como foi isso?

RNDY: Foi um dos eventos mais marcantes da minha carreira sem dúvida, o Festival de talentos promovido por um colégio situado no setor Finsocial. Eu tinha uns 16 anos e nunca tinha gravado minhas músicas ainda. Me lembro que saí de casa com umas roupas largas pretas e meu pai me disse: “Onde você vai desse jeito”? e eu respondi: “Vou ali buscar um violão pro senhor” (Que era o prêmio do vencedor do concurso). Ele riu da minha cara e desacreditou. Fui mal recebido lá, pois o pessoal que estava organizando e os participantes me achavam muito estranho com aquelas roupas e boné pra trás. Participei cantando três músicas de minha autoria e fui campeão do concurso. Tudo mudou dali pra frente! Todo mundo lá me achou legal depois do resultado, meu rap teve um significado pra mim e quando cheguei em casa estavam todos dormindo. Bati na porta e meu pai abriu, então eu falei pra ele: “Tá aqui o seu violão que eu prometi!”. Meu pai ficou sem reação e dali pra frente nunca mais desacreditou da minha música.

Ano passado no show de lançamento do meu segundo disco foi emoção do começo ao fim, afinal passava um filme pela minha cabeça toda vez que eu olhava ao redor, lembrando lá atrás quando eu buscava gravar as músicas..enfim, todo o esforço pra que aquilo ali fosse possível… Minha família estava lá… Até minha vó com toda dificuldade compareceu e viu seu neto cantar, foi lindo demais. E o meu pai, aquele que desacreditou de mim anos atrás, abriu o meu show cantando a música “Utopia” com o violão que eu dei pra ele anos atrás quando ganhei o concurso cantando o meu rap! Loko né?! Rsrs chorei até!!!

MM: Então antes de tudo isso rolar, como era seu envolvimento com a música. Como você começou de fato no rap? 

RNDY: Eu curtia muito cantar Sertanejo nas rodas da família… Cheguei até a participar de um concurso de talento aos 7 anos de idade cantando “Um sonhador” do Leandro e Leonardo. Minha família amava, eu era o orgulho de todos! Mas como houve alguns problemas de premiação, onde eles julgaram influência e não talento, eu desgostei de cantar, jurei até não subir no palco mais, pois me frustrei bastante de ter ido pra final do concurso, ter feito uma das melhores apresentações e não ter levado nem o terceiro lugar. Foi aí que aos 12 anos de idade eu conheci o Rap. Meu tio tinha acabado de comprar um dvd (que na época era novidade pois estava substituindo o videocassete) e pra testar esse dvd, ele tinha pegado emprestado um disco cheio de videoclipes de rap americano. Ele me chamou pra ver e quando eu vi, eu me empolgava e achava tudo muito criativo e diferente. Aí eu me apaixonei pelo rap. Na época, meu tio ia trabalhar e eu entrava na casa dele escondido, ligava o dvd e ficava a tarde toda vendo os clipes repentinamente rsrs. Eu gostava muito de fazer poesias quando eu fazia o ensino fundamental, então eu comecei a cantar minhas poesias em cima das bases de rap americano. Foi aí que fui aperfeiçoando e tomando gosto pela coisa…

MM: Como foi lidar com essa resistência familiar na época que você começou a escrever rap?

RNDY: Foi uma época bastante complicada porque meus pais odiavam rap e não aceitavam essa ideia pelo fato dele ser um estilo muito marginalizado pela sociedade desinformada né, até hoje inclusive. Na maioria das vezes eu escutava e fazia rap escondido pra não gerar brigas em casa. Depois de um certo tempo, as canções foram ficando melhores, tive acesso a internet e comecei a fazer minhas rimas em cima das bases da internet. Meus irmãos falavam que eu era louco e tal, e eu continuava a escrever mais e mais. Quando eu fui perceber, eu tinha 15 anos, e já tinha uns 13 músicas escritas. Sem o apoio de ninguém, REPITO, NINGUÉM!

Acho até estranho algumas pessoas falarem que eu comecei agora e não sei de nada ainda… Não mano! Eu comecei aos 13! eu comecei a minha busca para gravar minhas músicas..Eu pensava: “Cara, como é que eu vou gravar essas paradas? eu não tenho grana, e nem conheço ninguém que possa me ajudar”. Aqui no meu setor as pessoas do meu convívio não gostavam, no máximo escutavam um rap aqui ou ali. Mas na real não sentiam e nem amavam de fato o rap.

MM: E quais foram suas referência musicais? Cita aí umas 20 músicas especiais da sua vida, as mais marcantes mesmo…

RNDY: Olha… o meu gosto musical é bem variado. Vamo lá:

1- Chitãozinho e Xororó- Rancho Fundo
2- Legião Urbana – Mais uma vez
3- Legião Urbana- Tempo Perdido
4- Tim Maia- Eu amo você
5- Projota- Mais do que pegadas
6- Rosa de Saron- O Sol da meia noite
7- Padre Zezinho- Utopia
8- Eminem- Sing for the moment
9- A Tropa H2- Alicerce
10- Atentado Napalm- Não sabe o quanto
11- Síntese- Em favor do réu
12- Síntese- Eis-me aqui
13- MV Bill-Só Deus pode me julgar
14- Criolo- Vasilhame
15- Leandro e Leonardo- Um sonhador
16- Racionais- Jesus Chorou
17- Eminem- Lose yourself
18- Milionário e José Rico- O último julgamento
19- Gabriel O pensador- Cachimbo da Paz
20- Charlie Brown Jr – Céu Azul

Click: Abner Marcelo

RAP GOIANO: QUEM DECOLA E QUEM ATRASA

MM: Suas primeiras músicas foram gravadas onde? Quem te “apadrinhou” neste nascimento artístico?

RNDY:  Foi aos 16 anos, eu consegui chegar até o estúdio do meu mano Guineto Alves e gravei minhas duas primeiras músicas. O Guina (Guineto) foi um cara muito importante pra mim, pois foi ele que gravou meus primeiros 4 sons e me disponibilizou as duas primeiras batidas sem ser da internet, gratidão eterna por esse cara.

Conheci depois também o King (Noiz por Noiz) que foi quem gravou o meu primeiro cd, numa época em que eu já estava desistindo de fazer o disco porque eu já tinha gastado muito dinheiro tentando gravar meu cd, mas quem ficava por conta de honrar a entrega das músicas não cumpria.

MM: E quando de fato você se viu inserido na cena do rap goiano?

RNDY: Fui começando a colar em shows e eventos de rap saka… participei de algumas batalhas, perdi, ganhei, pedia pra cantar quando tinha microfone aberto, (me recusaram cantar algumas vezes) e tudo mais. Teve uma vez que teve um show do MV BILL aqui na minha quebrada e aí fui lá na casa da organizadora do evento e pedi pra cantar, ela disse que se eu não vendesse pelo menos 15 ingressos não seria possível eu cantar, então peguei os ingressos desesperadamente e comecei a oferecer pra vender, consegui vender todos e tive espaço pra cantar duas músicas, foi minha primeira apresentação em um evento de rap aqui em Goiânia.

Através desse show, conheci o Fabones (do Grupo Boca Seca),e ele me deu a oportunidade de cantar no evento “esquina paranóia delirante” que era um rolê no meio da rua, onde toda a galera do rap goiano colava pra cantar suas músicas. Lá eu conheci toda a rapaziada do rap de Goiânia e comecei a entender sobre a cultura hip hop. Depois disso, em todos os eventos de rap que aconteciam em Goiânia, eu comparecia, pra ver os shows, pra participar das batalhas, pra comprar os cd´s dos caras daqui, pra buscar uma oportunidade no microfone aberto, enfim, onde estivesse rolando rap, eu sentia que eu deveria estar lá pra fazer parte de forma plena na cultura hip hop. Tinha um amigo meu que sempre colava junto comigo, mas na real ele ia só pra acompanhar mesmo, depois que comprei meu carro, passei a ir sozinho. De tanto eu comparecer, eu acredito que os caras notaram que eu estava ali pra somar, e aí..naturalmente as amizades, o respeito e a admiração foram surgindo.Hoje, graças a Deus, conheço boa parte da galera e sou amigo de boa parte desses caras que eu tanto admirava na época que eu ia sozinho vê-los cantar.

MM: Esses 4 anos de experiência, como você enxerga o rap goiano perante a cena nacional?

RNDY: Tem grandes eventos, tem grandes mc´s, tem grandes talentos nas batalhas porém tem pouco profissionalismo. E a culpa não é da galera que fomenta o hip hop aqui, porque na real a maioria as vezes não tem condições e nem acesso pra pagar por esse profissionalismo. Eu fui vítima disso. Mas eu percebo que cada dia mais os irmãos estão conseguindo montar seu home estúdio em suas casas e gravando suas músicas da maneira como podem, e isso é uma vitória imensa! Eu admiro demais esse meninos sabe… Há uns 6 anos atrás era difícil encontrar um lugar pra gravar suas músicas, hoje tem um número de estúdios bem razoável pra galera registrar seu som.

A cultura hip hop aqui em Goiânia está em ascensão, melhorou demais em diversos aspectos, mas ainda tem muito o que melhorar… Em questão de logística, de organização, de respeito ao artista, de som e principalmente de público. Me preocupa muito perceber que o foco do público está mais nas batalhas do que nos shows, quando na verdade deveria ser ao contrário. A ausência do público na hora do show dos artistas daqui desmotiva os mesmos a continuarem. Estamos um pouco atrasados de outros estados ainda, mas a evolução é nítida a cada ano que passa.

Foto Arquivo Pessoal

Em relação a cena daqui..tá bem variado… Mas ainda temos MUITO O QUE APRENDER com os caras que fomentam isso a milianos. Tem mano que começa a fazer rap agora e dois meses depois já começa a querer cobrar como os outros devem fazer rap… Já infla o ego e desmerece outros trabalhos, e nem se quer respeita a história de alguns artistas que colaboraram pro movimento aqui em Gyn estar onde está hoje. O cara planta uma semente e já sai falando que a colheita dele é milionária e que ninguém nunca vai ter tantos frutos igual ele e a banca dele… E não é por aí, entendeu?! E outra, o rap não tem um livro de regras que exige que seja feito somente do jeito que você gosta, ou do jeito que começou. A gente não precisa gostar do som de todo mundo, mas é necessário respeitar… Tem público pra tudo e pra todos.

MM: E o que você acha que pode atrasar ou que já atrasa o rap goiano?

RNDY: A prefeitura, porque não apoia a cultura e o lazer aqui na cidade, e nem faz questão de liberar verba para fins culturais. O mal uso das redes sociais. Também a falta de apoio aos artistas e organizadores que procuram de alguma forma fazer acontecer. Um exemplo puro é o programa hip hop em cena. É uma bênção o Mano Cdj ter conseguido um espaço na TV pra gente. E ainda tem gente que critica…É lamentável! Cara..tem muita coisa…

MM: Nessa onda de descontentamento, você já fez alguma diss?

RNDY: Eu já pensei em fazer uma diss pro M2K (do grupo Faroeste) porque o cara falava mal de mim, da minha música e de quase todo mundo da cena do rap goiano. Parecia até que o cara era perfeito em tudo e ainda por cima veio na maior cara de pau me oferecer beats (eu tenho provas). Mas eu mantive a resiliência, agradeci e recusei. Cheguei a escrever a diss, mas pensei comigo mesmo: “O que isso irá agregar na minha carreira e na cultura hip hop daqui?”. Tipo, a cultura já é escassa, os recursos são limitados e eu ainda vou perder meu tempo e talento falando de algo que não vale a pena e nem agrega com nada? Além dos mais, outros artistas já haviam feito diss pra ele, então vi que o problema não era eu… rsrs.

MM: Mas tem umas canções suas com umas rimas meio direcionadas…

RNDY: Quando eu disse “loucos das antigas diz que sou modinha e pop” na música “K.O” que eu fiz em parceria com o Coiote (K’Ment) por exemplo, foi numa época em que esse argumento de “modinha” estava na boca dos conservadores do rap. E como eu estava chegando na cena com uma vertente mais alternativa e que abordava temas que não eram nem um pouco comum, fui bastante criticado por isso, porque algumas pessoas não concordavam com esse tipo de postura. Eu respeito isso, porém, as mesmas não faziam nada que justificasse ou somasse com o crescimento do rap goiano saka?!

Então tipo, eu estava ali em quase todos os eventos, tentando colaborar de alguma forma, eu tinha o respeito, carinho e admiração de quem na minha concepção corria pelo certo, das minhas maiores referências. Estava tentando gravar meu cd, enfim ,eu estava ocupado demais tentando prosperar com a cultura em si enquanto alguns manos ficavam curtindo brisa e apontando o dedo. Já tentaram meio que tretar comigo em algumas ocasiões, mas eu fui passivo e me esquivei de todas, porque cara, nem reconhecimento nacional a gente tem. E mesmo que tivéssemos, quem somos nós pra dizer o que o outro deve ou não fazer? A gente não sente o que o outro sente sabe. A gente tem que se unir pra ganhar nossa grana através da nossa arte e não ficar com essas bobeiras de conflitos em redes sociais.

MM: Então pra você, quais os 5 caras que mais representam (ou representaram) e impulsionam o rap goiano?

RNDY: Ras Tibuia, Mortão Vmg, Dj Fox, Mano Cdj e o Gigante no Mic. Devemos respeitar a história e o proceder desses caras. Mas na real tem vários outros nomes também como o Nobre San que faz diversos projetos sociais na quebrada dele, o Fabones que já promoveu eventos na quebrada e em locais de alta classe média… Mas esses cinco em si que cite me representam muito e me espelham bastante na dedicação e no amor que eles tem pelo rap daqui.

MM: Além de você, quem você aposta pra estourar nacionalmente entre os rappers goianos?

RNDY: Tirando o Atentado Napalm, que pra mim já é estourado e melhor que mais da metade dos grupos de rap no Brasil…? É complicado falar… Eu sou muito fã do Jimy (Noiz Por Noiz) e do Nobre San (K’Ment). Esses caras são muito bons! E acredito muito também no Wu-Kazulo, grupo no qual eu participo… Sou suspeito pra falar, mas eu acredito demais em cada um ali.

WU-KAZULO: Saggaz Beats, Rhafael Yellowman, Daniel da Silva, Jordana Luz, Ras Tibuia Strategista, Dener Renedy e Sem Lembrança. (Foto divulgação)

MM: Falando agora de estilos e gêneros…o trap tá dominando né, chegando pesado. Você se identifica? Já rimou em outro estilo musical?

RNDY: Não, não me identifico muito não com o trap…até ouço ás vezes. Gravei na ultima faixa do #VAE mas é meio que um trap mais melódico e tal. Quem sabe eu grave em outros… Pode ser que aconteça, depende da proposta a ser apresentada em cada som, mas no momento, além do boombap, eu to mais pra um acústico, estou até me preparando pra fazer algo do tipo. Ouvir mais um violão, um piano e um batuque. O legal do acústico é que ele permite atingir outros públicos e aproxima os mesmos um pouco mais do hip hop.

MM: Renedy, você tem noção da responsabilidade de ser rapper? A palavra é uma arma né cara. Como você se vê nessa função?

RNDY: Com Certeza… Eu tive que mudar muita coisa em mim pra me dedicar a essa escolha em ser Mc…O microfone é uma das armas mais poderosas que existe. Ele pode salvar ou prejudicar vidas, tudo depende de quem está por trás dele. Quando eu costumava ir em shows de rap com mais frequência pra ver os caras cantarem, eu prestava atenção em cada detalhe que eles falavam ou faziam no palco, tipo, cada gesto deles era minuciosamente reparado por mim, e eu levava aqui pra minha vida. Então, cada vez que eu pego um microfone e subo no palco, eu encaro como se todos estivessem naquele mesmo sentimento que eu sentia anos atrás.

MM: Se você pudesse escolher hoje qualquer artista (eu disse qualquer!) pra fazer o FEAT. hoje, quem seria?

RNDY: Nossa seria muitos viu..rsrs. Acho que seria o Síntese ou o Chitãozinho e Xororó.

Nego Max, Renedy e Síntese, em Neo Pub Goiânia (Dezembro, 2017). Foto Arquivo Pessoal

MM: Pra finalizarmos, o que você Renedy ainda está vivendo, aprendendo e evoluindo?

RNDY: Todos os dias, seja criança, jovem, adulto e até mesmo idoso, é um dia de viver aprender e evoluir. A vida é uma escola né… Eu vivo, aprendo e evoluo com meus erros e acertos… e com os dos outros também. Mas o que mais ando vivendo aprendendo e evoluindo é que a Educação vence a ignorância.

“Vários muleques sonham, em ser o ‘rapper do momento’,
mas nunca fortaleceu , nem cola nos eventos.
Quem não é visto não é lembrado, se liga chegado,
não se constrói um castelo começando pelo telhado.”
(Humildade pra Chegar,V.A.E)

 

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