Review: “ye” por Kanye West

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Madrugada de quinta pra sexta-feira, num clima meio frio, abro um app de streaming qualquer e vejo uma paisagem montanhosa, grama bem verde, me passa impressão de um clima frio, porém aconchegante, deve ser a fogueira, alguns animais pastam, de repente, um microfone, caixas de som, passagem de som, público, palco. É nesse ambiente em Jackson Hole, Wyoming, que Kanye West faz a primeira audição pública do seu mais novo projeto intitulado “ye”, coisas que somente Mr. West pode realizar, como dito no show de rádio do BigBoy, Kanye tem poder de levar pessoas em um lugar que muitos nunca haviam ido, e provavelmente não irão retornar, pra realizar um projeto de 5 discos, 7 faixas, e claro, para a audição do SEU disco.

No momento que escrevo essa review, ouço o disco pela 20ª vez, ou mais, sem contar os shuffles que caem as músicas aleatórias, que por incrível que parece, como há muito, são boas de ouvir fora do projeto completo (exceto os singles). Como sempre digo, discos curtos (30~50 min/10 faixas) são mais aprazíveis de ouvir, e West, vem com essa nova forma cimentar isso na cultura, como só ele é capaz de gerar tendenciar.

Antes de iniciarmos a falar especificamente do disco, precisamos abordar, rapidamente um assunto, que vem me perturbando que o público ouvinte de rap ainda não assimilou, vou falar de Emicida e Racionais no meio dessa review, por que, bem, eu posso, e vocês leem, então vamos lá, pegando dois álbuns aclamados no nosso cenário atual de rap como exemplo Nada Como um dia Após o Outro (Racionais MC’s) e Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro por Comida… (Emicida) são álbuns extremamente consolidados (há controvérsias, mas não cabem no momento), em que os artistas utilizam de certas técnicas, passam a mensagem que desejam, dão uma aula de rap, esquemas de rima, samples, produção e tudo mais, linkando tudo isso com uma entrevista de ambos artistas citados, Emicida e Mano Brown, para o Le Monde Diplomatique, citaram que álbuns são peças de arte e o artista em questão evolui (Emicida foi mais direto nessa questão, Brown citou-a de uma maneira mais sociológica) e não quer mais repetir a “fórmula”, ou falar dos mesmos assuntos, usar os mesmo produtores, samples e técnicas, por mais que deram certo, que são tomadas como “clássicos”. A arte é homogênea com quem a produz, e parafraseando Emicida “Aquele moleque que faz a Pra Quem mordeu cachorro, e a Emicídio, não existe mais, espero que ele esteja bem”.

Bom, com tudo isso em mente, vamos às notas.

“ye” é um disco que na primeira ouvida (na live da audição) me agradou bastante, porém nas ouvidas já masterizado, bonitinho e preparadinho pra bater na caixa, me passou um “vazio”, que não estava tão impactante quanto na audição, não sei se a vibe da mesma, ou acompanhar por vídeo e mais a ansiedade de um novo disco influenciaram, mas foi um sentimento que rapidamente passou, não me incomodou mais, tirando esse pequeno detalhe e a transição de faixas entre Wouldn’t Leave e No Mistakes que destoa das demais do trabalho, nada mais me puxou a atenção para o lado negativo.

Todas as tracks são muito bem produzidas, e lembram, à sua maneira uma pequena parte de tudo que Kanye fez até hoje, dos recortes de sample à utilização da voz como instrumento musical, de forma que só ele consegue fazer, a produção que mais me chamou atenção no disco é de Ghost Town (que quase não entrou no disco), por três motivos muito claros: 1 – o recorte de samples e a produção dela no geral, lembram muito MBDTF, com riffs de guitarra ao fundo, baterias carregadas e voz estouradas que não incomodam ao ouvido; 2 – a descoberta de uma nova artista que gostei muito, que inclusive tem um EP muito bom (070 Shake – Glitter); e 3 – Kid Cudi.

O disco aborda tudo que Ye vem falando nos últimos tempos, desde as polemicas, passando pelos rants no Twitter até os episódios de problemas de saúde, e ele aborda magistralmente tudo isso e nos apresenta um novo “Eu lírico” que expõe de uma maneira que ainda não havíamos visto como tudo que a figura pública causa, repercute na vida pessoal, não importa quem você seja, todos tem problemas e precisa lidar com seus demônios internos ao mesmo tempo que precisa ser social e interagir com seus pares. Todo esse conflito de o que você é, e o que esperam que seja, deixa marcas que podemos ver claramente nas faixas Wouldn’t Leave e Ghost Town, e nem sempre somos o que desejamos e pensamos em coisas que não são consideras “aceitáveis” como em I Thought About Killing You, aliás, essa faixa merece um parágrafo próprio.

Na capa do disco (que foi tirada no dia do lançamento à caminho da audição) Kanye não escreve o nome do disco, mas sim “I hate being bi-polar It’s awesome” que casa perfeitamente com a primeira track do disco, que citei no fim do parágrafo acima, que quando o disco estreou, várias pessoas pensaram que a faixa era relacionada com sua esposa, porém tenho pra mim que a faixa fala de si mesmo, em dois aspectos, de não suprimir os pensamentos, mesmo que julguem errado, eles podem ser uma epifania, e matar a si mesmo, pois me amo mais que você, mas se referindo a si como dois seres (bipolaridade), de amar a parte que tem bons pensamentos, porém, a parte ruim também é necessária, porque “os pensamentos lindos estão logo ali, além dos pensamentos obscuros.”

Acho que é isso aí, West fez um ótimo álbum, o melhor desde MBDTF, apesar de abordar temas pesados, que poucos tem coragem e aptidão para trazer para o público, com produções muito boas (sério, tem um sample de grito, e é harmônico!). No mais, aguardo Nas, produzido por esse mesmo Kanye sampleador. Foi mal pelo texto grande aí, mas é isso. Até a próxima.

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