Professor de Filosofia, Educador, Produtor Cultural, conheça a trajetória do moleque de quebrada que está ganhando o mundo, com vocês Davi Albuquerque

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Era noite de Segunda-feira quando o professor de Filosofia, Educador, Músico, Produtor Cultural e integrante do coletivo Estética Urbana, Davi Albuquerque me encontrou no metrô Tucuruvi e viemos para minha casa começar então a segunda entrevista dessa coluna.

Antes de falar do Davi e de toda sua caminhada dentro desse mundo louco que são as artes, a educação e a cultura, preciso falar que estar fazendo essa coluna está sendo gratificante demais. Quem me conhece no pessoal sabe o quanto isso significa para mim, que isso era um sonho que hoje se torna real, e eu só posso agradecer a todos os envolvidos.

Emoções a parte, voltemos ao Davi.

Começamos a entrevista de forma descontraída, afinal além de parceiros de profissão e projetos, também somos amigos, e esse é o diferencial dessa coluna, quero poder entrevistar meus amigos, que além de profissionais incríveis e que todo mundo precisa conhecer, também são pessoas maravilhosas.

Representando a Zona Norte de São Paulo, mais precisamente o bairro do Jaçanã (aquele da famosa música Trem das Onze), Davi é um homem preto de 34 anos, sagitariano (oh my God rs), filho de mãe preta, nordestina e que teve a vida sempre marcada por inúmeras mudanças (não só em sua vida pessoal, mas também mudanças de residencia, já que desde pequeno se viu pulando de bairro em bairro da cidade, morando em diversas favelas paulistas), tendo assim a mesma narrativa de muitos jovens negros que estão ai nas ruas tentando sobreviver e driblar todas as dificuldades que é morar em uma grande metrópole sendo um jovem negro de periferia.

Como qualquer moleque de quebrada, Davi passeou pelos extremos da vida, se envolvendo com o mundo das drogas ainda na adolescência, tentando achar refúgio para a ausência de carinho e afeto que buscava dentro de casa e que infelizmente nem sempre acontecia, afinal Dona Marinalva, sua mãe, precisava trabalhar duramente para sustentar a família e dar as melhores condições aos seus 3 filhos.

A fuga para sair dessa situação foi sua entrada na igreja, uma igreja de bairro com tradição batista e que serviu como “salvação” para o jovem garoto que ali encontrou uma de suas primeiras paixões, a música. Depois de muito aprontar, aos 17 anos finalmente Davi estava encontrando uma ferramenta que pudesse mudar suas perspectivas de vida e dar um norte melhor aos seus sonhos, que até então ainda estavam adormecidos. Nessa fase começou a tocar contrabaixo na banda da igreja, algo que até hoje ainda se faz presente na vida e nos projetos do produtor.

Com seus 17/18 anos, Davi que sempre precisou ajudar em casa, começou a se aventurar nos mais variados empregos (o formalzinho mesmo, CLT e taulz), passando por sapateiro, ajudante de pedreiro, ajudante de vidraceiro, letreiro, office boy, segurança de mercado, telemarketing, e afins. Essa foi a fase de se encontrar como homem e tentar achar seu lugar dentro das opções que nos são “dadas” como empregos bem vistos e com remuneração mensal.

Nesse processo de descobertas, cursou Propaganda e Marketing por 1 ano e meio na antiga UNIBI em Santo Amaro, passou por Administração na FAM no qual permaneceu por mais 2 anos (aquele momento em que você já não sabe mais o que fazer e vai tentando opções até achar). Na faculdade de ADM, Davi se viu encantado pelas aulas de Sociologia, onde começou a despertar sua vontade de ensinar outras pessoas. Um de seus professores do curso de ADM (de Teoria Geral da Administração) era alguém no qual Davi sempre admirou, suas conversas quase que diárias até o metrô o motivaram a chegar a faculdade de Pedagogia, onde permaneceu por 6 meses.

Depois de uma briga com um de seus professores de Filosofia no curso de Pedagogia (professores de Filosofia adoram discutir sobre o que é o amor, ainda me lembro do meu professor do ensino médio, Tito Boni que me deixou por anos intrigada sobre o que de fato era o amor), Davi resolveu que essa era a hora de voos mais altos, o que o levaram para a faculdade de Filosofia aos 29 anos, depois de ter experimentando diversas experiências e finalmente estar encontrando seu caminho.

Na faculdade de Filosofia, Davi se encontrou dentro de um ambiente totalmente radical e livre, onde o garoto de origem humilde poderia se descontruir, se conhecer melhor como homem, como ser humano, expor seus sentimentos, suas aflições, suas vontades e disso chegar ainda mais longe podendo ensinar outros jovens, assim como ele foi um dia, a viver nessa selva de pedra que é São Paulo, com a mente mais aberta para as oportunidades, se permitindo experimentar, e principalmente, dar vida aos seus sonhos.

Aos 31 anos de idade Davi entrava pela primeira vez em uma sala de aula, agora não mais como aluno, mas como professor de Filosofia da E.E Albino César, um colégio na Zona Norte de São Paulo que inclusive eu, e outros amigos também produtores (inclusive a galera que compõe o coletivo Estética Urbana) também estudaram, alguns até mesmo foram alunos do Davi (eu não tive essa sorte, sai 4 anos antes disso acontecer).

Ali se iniciava mais uma das tantas mudanças de vida do homem que batalhou a vida toda para se encontrar e fazer o que mais amava, viver em prol da arte, da cultura e da educação.

(Oficina de MC do projeto A Rua é Cultura, realizado pela Associação Frida Kahlo na E.E João Amos Comenius, Jd Vista Alegre – Brasilândia)

Bate Papo com Davi Albuquerque:

Como você iniciou seu trabalho como professor e educador?

Comecei a dar aula em 2014, no Albino César, quando ainda estava no terceiro ano da faculdade de Filosofia. Em 2015 lecionei no Arnaldo Barreto (outra escola da Zona Norte de São Paulo), onde fiz um projeto de filmes com os alunos (a partir das discussões de temas como aborto, depressão, drogas, produzimos curtas relativos a tais temas dentro e fora do ambiente escolar).

Em 2016 passei a ser orientador sócio educativo no CJ Helena Portugal Albuquerque,  na Associação Multirão.  Lá coordenei junto a Roberta, gerente do espaço, uma feira de profissões,  atendendo 100 jovem estudantes da comunidade, introduzindo eles às disciplinas de Medicina, Marketing,  Empreendedorismo, Direito e Arquitetura.  Ainda no CJ, mas agora em 2017, comecei a oficina de MC,  um projeto que acontecia dentro do CJ sob a organização da Associação Frida kahlo.  Para me ajudarem a promover a oficina convidei meus amigos e ex alunos,  Isabelly Lira, Nathallí Monteiro,  Guilherme Araújo e Yago Ferraz (hoje, integrantes do Coletivo Estética Urbana).  Eu cuidava da parte pedagógica/teórica e eles da parte artística, tendo como proposta formá-los como educadores também.

O que é e como nasceu o Coletivo Estética Urbana? Quem são os componentes do Coletivo?

Através da oficina de Mcs no CJ surgiu o Estética Urbana (um grupo de jovens educadores que trabalham com as linguagens artísticas urbanas para fazer crianças e adolescentes refletirem suas condições matérias e existenciais). O projeto da Associação Frida Kahlo se entendia para a escola João Amos Comenius,  na Brasilândia, e de lá,  para apresentar as músicas e poesias criadas pelas crianças nas oficinas de MC, criamos o evento O Rap Fortalece, que inclusive amanhã (19/5) comemora sua 6ª edição na Fábrica de Cultura da Brasilândia, contando com diversas apresentações de grupos de RAP da região, oficinas, poetas, entre outras atividades.

Equipe Estética Urbana

Natalhllí Monteiro –  Fotógrafa,  MC, Produtora Cultural, Arteducadora de danças urbanas e uma das fundadoras do coletivo;

Isabelly Lira – Fotógrafa,  MC,  Produtora Cultural,  graduanda em Relações Internacionais, educadora e também uma das fundadoras do coletivo;

Yago Ferraz – MC, arteducador e educador ambiental, Músico, graduando em Agronomia, Produtor Cultural e também um dos fundadores do coletivo;

Davi P. Albuquerque – Professor de Filosofia, Educador Social, Músico, MC, Produtor Cultural e um dos fundadores do coletivo;

Guilherme Araújo – MC,  Produtor Cultural,  Arteducador e um dos fundadores do coletivo;

Vitor Brum – Produtor Cultural,  Arteducador, Beatmaker e graduando em Produção Musical;

Leticia Pralon – Fotógrafa,  Arteducadora,  Produtora Cultural e graduanda em Jornalismo;

Débora Santos – Fotógrafa,  Produtora Cultural, Arteducadora, e graduanda em Publicidade;

Lud Cursio – Músico, Arteducador e está entrando no projeto musical da ocupação da Casa de Cultura do Jaçanã onde o coletivo realiza um trabalho de aulas de música todos os Domingos das 10h00 ás 14h00;

Marcus Shaeffer – Professor de História e Educador Social, está construindo juntamente com Davi o projeto de uma Universidade Colaborativa.

(O RAP FORTALECE – 5ª edição na Fábrica de Cultura da Brasilândia)

Qual a importância da faculdade de Filosofia na sua vida pessoal e também na sua área de atuação atual?

Na minha vida pessoal, pelo caráter de reflexão e descontração radical, mudou muito minha percepção de mundo.  Coisas que eu pensava antes ficaram no passado.  Minha noção sobre a espiritualidade, sobre o amor, sobre a existência, tudo mudou. Meu espírito parece que conheceu um alargamento, o que influi na minha percepção de como existir.  O mundo quase sempre é vazio e dor. E para dissipar esse conjunto, somente com ações significativas, que nos tirem de nós mesmo e crie algo de belo, não importa se for uma aula, uma esmola ou ato de heroísmo que salve muitas vidas ou evite uma guerra.  Toda ação que vise tirar a dor do outro ganha sentido nesse quadro geral. Onde está a espiritualidade se não aí.

Já em relação ao trabalho, a Filosofia é a maior arma de destruição de preconceitos historicamente sedimentos, colocados como verdades absolutas. A Filosofia é a destruidora de absolutos que aprisionam as mentes e os corações.  Nos dias atuais, onde parece que a fuga é a famosa frase “é a minha opinião” ganha um estatuto de certeza universal de um único mundo possível, a Filosofia e a Crítica Filosófica, vem para mostrar aos jovens alunos que há outros mundos possíveis, basta vencer os medos e criá-los. Pois o que são preconceitos senão o medo do novo?

Quem são suas maiores inspirações e referências?

Minhas inspirações…  bem isso é difícil… Vou tentar separar em campos.  No que diz respeito ao trabalho, minha inspiração é minha mãe, mulher guerreira, nos ensinou, a mim e meus irmãos, o valor da luta com humildade! Na música, Pink Floyd, Rage Agains de Machine, Facção Central e tudo de Reggae que for possível, sem distinção. Na Filosofia,  Krishinamurti, Nietzsche,  Michael Löwy, a escola Sofista,  Cética e Sócrates (pelo seu método,  não tanto pelos resultados). Todos nos ensinam, a seu modo,  a colocar as questões relevantes da vida sob o olhar da crítica. E de modo geral, atualmente me sensibilizo pelas questões de desigualdade social e econômica,  compreendendo aí os movimentos de luta e das minorias políticas, como o movimento negro, feminismo, indígena,  LGBTQ+ etc. Além disso, uma grande referência para mim é  o grupo de louvor da Igreja Evangélica de Moema (I.E.M) que me mostra, há 20 anos, como se faz música de todo o coração.

Mas afinal, quem é o Davi?

O Davi só é um cara apaixonado pela beleza e o sabor das coisas boas da vida.  Mas também sensível às dores do mundo.  Quero apenas me cercar das melhores pessoas para rirmos juntos, fazer música e comer bem.  E que essas mesmas pessoas possam me auxiliar na construção de um mundo melhor.  Isso tudo é muito simples, muito comum. Afinal, quem não quer essas coisas?

(Oficina de MC do projeto A Rua é Cultura, realizado pela Associação Frida Kahlo no Centro para Juventude, na Associação Mutirão – Jd. Filhos da Terra)

Quais são os projetos do Davi para 2018 e o que você espera tirar de cada um desses projetos?

2018 já está fervendo! O Estética Urbana está mais forte do que nunca! Estamos numa construção de algo muito maior. Estamos de olho no futuro, uma nova etapa.  Vem coisas boas nos próximos anos. E ainda agora estamos com um projeto musical, nos três primeiros Domingos do mês no período da manhã, na ocupação cultural da Casa Cultural Hip-Hop Jaçanã. O trabalho consiste em aulas de músicas (baixo, guitarra, teclado etc) e ensaio coletivo (pegar as músicas da galera e colocar em formato de banda acústico, com a mistura de vários estilos para além do rap). E ainda na própria Casa haverá mais atividades do Estética.  Estamos na construção.  Um passo de cada vez, foco no trabalho bem feito.

(Evento O RAP FORTALECE 6ª edição que acontece amanhã na Fábrica de Cultura da Brasilândia)

É, seria impossível não se apaixonar e não ter vontade de conhecer esse cara, que pra mim (Adriana Moraes) é referência não só como profissional, mas como ser humano. Estar com o Davi sempre é um encontro mágico, uma troca de energia surreal, que quem o conhece e tem o prazer de estar com ele, seja trabalhando, criando, compondo ou só tomando uma breja (porque ele adora uma boa cervejinha rs) sabe que é verdade.

Não tem como não se inspirar nessa história, não tem como não contar essa história para o mundo, fazer com que outros jovens de periferia vejam que tudo é possível SIM, basta acreditar, se permitir conhecer o desconhecido, arriscar e ir, com medo ou sem, porque no final, se você realmente almeja algo, você consegue chegar. O Davi é a prova de que por mais difícil que as coisas possam ser, é possível vencer, ser mais do que números nas estatísticas de violência da população negra no Brasil, superar expectativas, mostrar para o mundo que a periferia está se unindo, está se ajudando, está produzindo não só serviços ou produtos, mas seres humanos de fato mais humanos, mais sensíveis e que assim como nós querem e vão mudar talvez não o mundo, mas pelo menos uma parte dele.

Foi um prazer imenso realizar essa entrevista, agradeço imensamente ao Davi por essa noite incrível, por tudo que nós já realizamos juntos e tudo que ainda vamos realizar. Em Julho faremos uma edição colaborativa do evento O Rap Fortalece + Sarau Papo de Mina, então aguardem novidades, estamos trabalhando.

Links: Coletivo Estética Urbana e Davi Albuquerque

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