Parem de brisa! O rap é preto e não somos todos iguais

0

As pessoas se perguntam o que está acontecendo com o Rap nacional e percebo que o público e “grandes” produtores dão voz a quem deveria se manter calado, além de aplaudir racistas, machistas, homofóbicos e misóginos. O racismo, a falta de representatividade e de respeito seguem mais fortes do que nunca, infelizmente.

Quem dá voz a MCS racistas e machistas ganha “hype” e lucra, graças a parte do público que não se atenta ao conteúdo que consome e nem bate de frente para argumentar. E nós, pretos, quando questionamos e falamos de racismo, somos taxados de vitimistas e ainda mais menosprezados, até o branco falando de racismo é mais ouvido do que nós, reparem.

Nabrisa não foi a primeira e nem será a última “rapper” branca a expor o racismo que guarda dentro de si nas próprias “rimas“, temos exemplo daquelas que não fizeram isso nas letras, mas sexualizaram homem preto. Não é caso isolado, lembram do Bruno Fabil, o youtuber? Pois bem! O intuito desse texto é apresentar alguns dados e fazer com que o público reflita e MUITO sobre racismo, representatividade e visibilidade.

Em um dos versos de “Passarin“, ela diz: “Inferno é pra branco e pra preto. Na cadeia tem branco e preto“. Não fico espantada pela música ter passado na mão de várias pessoas até gravarem o clipe, mas é bizarro ninguém ter notado essas linhas e ainda tratarem do assunto com “normalidade”. Não espero mesmo um posicionamento do abacaxi e muito menos da dita cuja, que preferiu não reconhecer o que fez, mas indagar que as pessoas são burras e não sabem interpretar. Ah, tá!

Sabemos que têm brancos e pretos na cadeia, no entanto, de acordo com dados do Sistema Integrado de Informações Penitenciárias (Infopen), divulgado em dezembro do ano passado, 64% dos presos no sistema penitenciário nacional são negros. Mas, falando especificamente sobre mulheres presas no Brasil, 68% delas são negras. Vocês sabiam que no Acre 100% de todas as mulheres presas são negras? No Ceará são 94%, já na Bahia, minha terra, 92%.

O Infopen constatou que o Judiciário Brasileiro exerce uma seletividade penal prejudicial à população negra, vocês já sabem o motivo: racismo. Quantos casos de jovens pretos que foram presos injustamente vocês conhecem? Conheço muitos, Rafael Braga está aí de prova. Já o filho da desembargadora Tânia Garcia, preso duas vezes com quilos de maconha no carro, foi solto pela mãe de maneira ilegal da primeira vez e agora alega insanidade mental. Esse é apenas UM dentre os milhares de exemplos do que significa ser branco e privilegiado.

É raridade ver branco reconhecendo privilégio e quando reconhece, nós, pretos, não devemos dar biscoito a eles por isso. Não fazem mais do que a obrigação, ué! Poderia citar diversos que fazem rap e estão conscientes da responsabilidade de estar envolto ao hip-hop e que, acima de tudo, respeitam a história do movimento e os que vieram muito antes deles, mas não é preciso citá-los neste momento, quem é sabe.

Ainda sobre estatísticas, a cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Segundo o Atlas da Violência, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2015, 385 mulheres foram assassinadas POR DIA. A taxa de homicídio de mulheres cresceu 7,5% entre 2005 e 2015 no Brasil. Inclusive, no meu TCC falamos sobre a violência contra a mulher, “Em que medida as leis Maria da Penha e do Feminicidio estimularam a redução das agressões à mulher em Salvador“, leiam.

O estudo do Ipea ainda revela que homens, jovens, pretos e de baixa escolaridade são as principais vítimas de mortes violentas no País. A população negra corresponde a maioria (78,9%) dos 10% dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios.

“Na favela tem branco e preto”

Há exatos 130 anos chegava ao fim a escravidão, 388 anos após o ‘descobrimento’ do Brasil. Os negros sempre estiveram em um papel rebaixado e submetidos à nada. Após a regulamentação da Lei Áurea o escravo teve poucas opções, uma delas era se tornar trabalhador assalariado do seu antigo “senhor”, agora patrão.

Ao longo dos anos, os negros ocuparam subúrbios, já que ainda havia a impossibilidade de serem inseridos na sociedade e na verdade ainda há. Até hoje, muitos vivem nas favelas e sem estrutura. Apesar disso, temos os coletivos e projetos que trabalham em prol do desenvolvimento e melhoria do povo preto, das mulheres, são pessoas que visam também a melhoria para nossas crianças e conseguem ter uma responsabilidade maior do que o próprio Estado, que não fornece o básico.

Só quem é preto e vem da favela sabe como são os olhares tortos da população, sabe como é ser julgado desde a infância, não só pela cor da pele, mas também pelo local onde reside. Desde cedo esses jovens pretxs entendem o que é a violência quando se deparam com seus amigos mortos pelas mãos da PM ou por serem assediados pela falsa “vida boa” que o tráfico diz oferecer, mas sabemos o fim que pode levar. Digo isso por experiência própria e familiar. Mesmo quando o branco vem da quebrada, ainda está em vantagem. Ele não vai ser parado na blitz por causa da cor, ele tem mais chance de conseguir emprego, mesmo residindo na favela, ele é mais bem visto socialmente e por aí vai…

Rap é pra branco e pra preto. Todo preço já foi pago, eu não preciso dá [sic] um jeito

Mas foi criado por gente preta e o branco precisa entender e respeitar. O rap é apenas um dos elementos do hip-hop, mas, ainda sim, marginalizado quando tem um preto a frente. Já pararam pra pensar os motivos de rappers brancos (as) e sem talento continuar tendo mais visibilidade do que rappers pretos (as) talentosos? O público e nem o mercado valoriza esses artistas, desde aquele cara que faz o corre nos ônibus divulgando seu trabalho e vendendo CD, até aquele que já é “grande”, com melhores condições, mas preto e ainda vitima de racismo.

Nem as nossas crianças estão isentas do sofrimento que o racismo traz. MC Soffia registrou um boletim de ocorrência junto a sua mãe, Kamilah Pimentel, após passar por mais uma situação e dessa vez, não se calou.

Dizer que “o preço foi pago” é fácil, mas o preço não foi e nunca será pago, porque nada vai ser suficiente para apagar a dor do povo preto que teve seus ancestrais arrastados, enjaulados, tratados como animais. Nossos ancestrais que fizeram de tudo para seguir fortes e com suas crenças nos Orixás, Voduns e Nkisses, a ponto de guardarem a pedra de suas divindades dentro de santos católicos para cultuá-las e que, apesar disso, mantiveram nossas raízes fortes, está aí o candomblé para provar isso.

As cotas são pouco! Se fôssemos cobrar por tudo o que arrancaram de nós, não ia prestar, não ia sobrar quase nada pra eles, já que se apropriaram de muuuuuita coisa. Não é justo um negro que cresceu sem oportunidades e sem boa qualidade de ensino concorrer a vagas com jovens brancos que tiveram ótima qualidade de ensino, boa parte deles em colégio particular. E apesar de toda a critica dos brancos às cotas, que chega a ser hipócrita, eles esquecem das cotas sociais, que é justamente para quem estudou em colégio público e possui baixa renda comprovada e que eles podem “usufruir”. Há casos de brancos que se disfarçaram de quilombolas para conseguir vaga nas universidades por cota, o governo só soube após denúncias, mas sem isso, não existiu uma fiscalização da forma que deveria.

“…O mar é imenso e vocês tão emocionado só com a brisa…” – Emicida.

De fato! Sabe o que pode ser feito para dar visibilidade ao artista preto? O público se interessar por tudo o que esses artistas fazem. Conhecer, divulgar e ajudá-los a alcançar mais pessoas. E, apesar de tudo isso, sabemos que as mulheres são ainda mais invisibilizadas do que os homens pretos, já falei sobre isso também e você pode ler clicando aqui.

Seguem alguns trampos para vocês conhecerem, assim param de brisar na onda errada. rsrs

Conheci através do Hebreu (Noticiário Periférico) e fiquei apaixonada pelo corre do Omnira (que no idioma yorubá significa liberdade). O grupo é formado por três mulheres, Janaína D’NótriaJuh Sete e Paty Treze e um homem, DJ Neew.

Há quase um ano falei delas aqui no site, no lançamento do CD “Grito de Liberdade“. O disco possui 10 faixas, nas quais são abordados temas como autoestima e empoderamento da mulher negra, violência policial, religiosidade afro brasileira, violência contra a mulher, racismo, entre outros, embalados em beats swingados com muita percussão e samplers remetendo a músicas de matriz africana.

Aika Cortez é outra mana que curto bastante o trampo e que vale ser lembrada. Ela lançou “AIK-47” essa semana. Recomendo que confiram os outros trampos dela, como o videoclipe de “Dissociação“. Ela foi considerada umas das 25 mulheres negras mais influentes na web, em 2015, pelo Blogueiras Negras.

Thiago Elniño e Bia Doxum lançaram o videoclipe de “Não Conforme” em abril. A música faz parte do disco “A Rotina do Pombo“, lançado em fevereiro do ano passado.

Bia também têm alguns trabalhos solo e deve soltar novas músicas em breve, dessa vez, com uma banda. Além disso, ela gerencia a Obinrin Produções ao lado da irmã, que tem foco no feminismo negro e nas lutas raciais da juventude preta.

Quero dizer pra vocês que TEM MANA NO RAP!!! Conheci Hiran esse ano, ele é rapper, gay e meu conterrâneo, da Bahia, saiu de Alagoinhas para o mundo. Canta sobre representatividade e lançou um álbum com nove faixas em março deste ano, vale conferir. Inclusive, nesse fim de semana ele estará em São Paulo, tem show na Virada Cultural à convite do Coletivo AMEM.

Joyce Fernandes, mais conhecida como Preta Rara, também é responsável pelo sucesso dos projetos “Eu Empregada Doméstica”, Ocupação GGG, Nossa Voz Ecoa e Hip Hop Resiste. Ela é rapper, turbantista, professora de história, empreendedora, ela é incrível e a admiro muito como pessoa e artista.

Se ainda não conhece Rimas e Melodias, pare tudo o que estiver fazendo e ouça agora! Alt Niss, Drik Barbosa, Karol de Souza, Stefanie, Tássia Reis, Tatiana Bispo e DJ Mayra compõem o grupo. Juntas desde 2015, elas desconstroem moldes e fortalecem a presença feminina, sobretudo a negra, no hip-hop, na música, na sociedade.

Segue mais alguns artistas e trampos que vocês podem pesquisar sobre.

Essa lista não é nada perto dos incontáveis talentos que temos por aí. Caso vocês tenham indicações, deixem nos comentários ou mandem pra mim, faço questão de conhecer. ♥

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.