Duas mulheres que se complementam e transbordam, com vocês Andresa Fernandes a Deusa Poetisa

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A primeira matéria dessa coluna seria sobre o Lollapalooza, porém antes de falarmos de coisas ruins (sim, a matéria do Lolla não é tão linda quanta a ilusão que o festival vende) me senti tocada e com a necessidade de começar isso falando sobre uma mulher inspiradora, uma mulher preta, na verdade, uma não, duas mulheres em uma só, duas personalidades, duas expressões, dois mundos que se complementam e dão vida a uma pessoa incrível e a uma artista indescritível.

Foi no Sarau do Infinito, na noite do dia 4 de Abril de 2018 que nós iniciamos essa conversa. Desde que comecei a conhecer e frequentar os saraus e slams da vida, conheci a Deusa Poetisa, porém apenas na noite do dia 4 de Abril eu pude conhecer a Andresa, a mulher que dá vida a poetisa que nós conhecemos e admiramos tanto.

Representando a Zona Leste de SP, mais precisamente São Mateus, a Andresa tem uma vida agitada assim como a nossa, trabalha o dia todo, é dona de casa, empreendedora, produtora, poetisa, mãe do Reginaldo (o cachorro terrorista rs), e além disso ainda é dona e interprete da Deusa Poetisa, uma artista negra, com fortes raízes de sua cultura, que declama em suas obras sobre a ancestralidade do povo negro, sobre o poder da mulher negra perante a sociedade, sobre o racismo velado presente em nosso dia a dia a séculos, entre outros temas que assombram e pairam o universo de uma pessoa negra no Brasil.

Na noite em que nos encontramos essa mulher me disse algo que ainda está na minha cabeça e que faz total sentido para mim: A poesia passa, é como uma tela, você tem a inspiração, você expõe isso e depois acaba, as coisas se reinventam, tomam novas formas, chegam novos problemas, novas frustrações e isso serve de combustível para que novas produções aconteçam. Não tem uma lógica, uma obrigatoriedade, é tudo natural, acontece de repente, quando tem que acontecer.

Integrante do coletivo Alcova (composto por Deusa, a escritora e poeta Patrícia Meira e a educadora social, atriz, professora e produtora Daniela Rosa) e uma das idealizadoras do projeto Sarau Alcova da Deusa, Deusa Poetisa e Andresa são um turbilhão de sentimentos, vontades e realidades. Andresa é uma mulher tranquila, tímida, mais reservada, porém quando é Deusa a mulher se transforma em uma leoa indomada, cheia de calor e sensualidade, que usa e abusa de suas curvas e ritmos, marcando presença por onde passa.

Coletivo Alcova – Deusa Poetisa, Patrícia Meira e Dani Rosa

Deusa tem diversos trabalhos já disponíveis na Internet, e atualmente participa com um de seus textos da Antologia do Slam das Minas juntamente com outras poetas. Além disso, Deusa também foi uma das vencedoras do Slam Sofálá 2017 realizado pela Red Bull Station com a poesia Ultimato.

Poesia Ultimato – Sofálá 2017

Bate Papo com Deusa Poetisa:

Fala Memo Produção: Como foi seu primeiro contato com a poesia?

Meu primeiro contato com a poesia foi na escola na época do ensino médio. A professora passou um trabalho de classe que consistia em escrever uma poesia. Naquela época sempre gostei de um vocabulário rebuscado, acadêmico e escrevia muito sobre coisas não vividas. Amores platônicos ou temáticas específicas. Na maioria das vezes quando precisava externar algo que sentia era no papel que conseguia o alívio desejado.”

Fala Memo Produção: Quais são suas maiores inspirações?

Sinceramente, é a vida mesmo! Eu pauto meu trabalho muito mais nas Artes Cênicas. Tenho lido pouco, mas tem poetas atualmente que admiro o trabalho e que traduzem muitas vezes o que sinto, outras que reconheço a potência, mas que talvez não usaria a forma de escrever como referência. Gosto muito do trabalho da Ryane Leão, da Patrícia Meira, da Débora Garcia, da Tháta Alves, da Luz Ribeiro, da Jô Freitas, entre outras.

O posicionamento delas como poetas, artistas e principalmente como mulheres e seres humanos me ensinam muito e fazem com que eu reflita minhas atitudes. Acrescentando a lista das inspirações, outra mulher que me inspira muito é a Daniela Rosa, que não é poeta, mas é atriz e sócio educadora que tenho uma admiração ímpar.”

Fala Memo Produção: O que você espera da poesia?

Que ela me faça evoluir como pessoa, assim como tem feito desde que voltei a me relacionar com ela. Além de ser o veículo que conta minha história e ressignifica minha revolta, ela tem me levado tão longe, me fazendo conhecer lugares e pessoas que nunca pensei que um dia pudesse conhecer e encontrar. A poesia me cura e me transforma, é só desejo, mas espero que ela permaneça comigo enquanto eu respirar.”

Fala Memo Produção: Quais são as maiores diferenças entre a Andresa e a Deusa?

A Deusa é a materialização dos sentimentos e aspirações da Andresa. Ela é corajosa e na maior parte do tempo destemida. Observadora, analítica, ela tem uma visão panorâmica e privilegiada das situações. Consegue através dos meios ver o findar das coisas. Ela se arrisca e brada, esbraveja, gargalha e expressa sem temor de ser julgada.

Para Deusa o que está feito, está feito! Por isso ela calcula cada palavra, expressão e significado de sua poesia. Ela não abaixa a cabeça. Já a Andresa é um pouco rabugenta rs, são traços de sua personalidade a ironia e o sarcasmo, de sutil humor. Ela só tem tamanho, apesar da aparência de brava ela é um doce quando bem tratada, mas quando não vai com a cara é tão fria quanta a Antártida. Ela é tímida e muitas vezes tem receio e vergonha de falar e se expressar. Reservada, carinhosa e pau para toda obra quando o outro precisa, isso a define. A Andresa encontrou através da Deusa uma forma de se comunicar e conseguir externar tudo que lhe atingia e infligia.”

Fala Memo Produção: O que é o Coletivo Alcova? O que vocês almejam?

O coletivo Alcova foi o resgate e é a cura. Nós unimos diversos propósitos e assim nasceu o coletivo, para que fosse instrumento de cicatrização e realizações íntimas de cada componente, cada uma com sua potencialidade, unidas e munidas de força para a luta do dia a dia.Buscamos dar voz através do nosso trabalho ao povo excluído e marginalizado.

Trazer as mazelas da sociedade à tona e nos fortalecer frente aos flagelos diários que vivemos. Através do nosso trabalho, mostramos que não é questão de “aceitar” quem somos, mas sim “Amar” quem construímos. Que você sendo LGBTQ tem todo direito de amar e viver, sendo gorda tem o direito de sensualizar, dançar, se excitar e fazer com que as pessoas se excitem com você. Que ser preto é sinônimo de poder.

Buscamos mostrar que a união faz a diferença quando você realmente busca a mudança de algo. Que pode até lutar sozinho, mas acompanhado você chega mais longe do que o esperado.Refletindo com as meninas, pudemos ver que o Coletivo Alcova tem uma singularidade em sua formação e condução.

Vemos que todas tem suas carreiras individuais e coletivas com os grupos, mas a energia, sintonia e base do que nos une vai além de fazer arte e bradar. Quando estamos unidas, mesmo cada uma com seu gênio marcante nos completamos e conseguimos seguir, com bases sólidas e respeito mútuo. Uma vai compreendendo e completando a outra, mas sempre lembrando que antes de coletivos somos amigas e irmãs.”

Fala Memo Produção: Quais seus planos a médio e longo prazo dentro da poesia?

Consolidar a Deusa e fazer sua marca na história como toda artista deseja. Fazer com que o  Sarau Alcova da Deusa chegue tão longe quanto seu próprio nome, sendo acolhimento, refúgio, instrumento de luta para muitos. Quero poder conectar cada vez mais as Artes Cênicas e a Poesia pois não me vejo sem nenhuma das duas. Penso em futuramente ter uma Casa de Cultura, onde poderei realizar os projetos não só do meu Coletivo, mas dar espaço para tantos outros exercerem suas artes.”

Driika Moraes e Deusa Poetisa pós Sarau do Infinito – 4/4/2018

Deusa e Andresa fazem da poesia marginal sua voz, tudo feito com uma beleza ímpar, tocando nas feridas que afligem o povo negro, e principalmente a mulher preta, pobre, de quebrada, que dá seus corres para realizar seus sonhos e alcançar seus objetivos. Essa mulher que passeia na dualidade de duas personalidades que se completam, mostra em suas poesias sobre como sustentar a autoestima diante de ataques vindos de todos os lados, de todas as pessoas, o preconceito, o racismo impregnado na nossa sociedade e muita vezes mascarado.

Por onde passa, tanto a Andresa quanto a Deusa arrepiam e emocionam a todos com sua arte, e além disso, ela inspira e representa mulheres assim como eu a encontrarem nas palavras, na arte e na poesia uma válvula de escape para o que mora dentro de nós e precisa sair.

Para mim, foi uma honra iniciar essa coluna falando sobre essa mulher que é referência de força, de garra, de imponência. Alguém no qual eu tive o prazer de conhecer melhor, o prazer de hoje chamar de amiga, alguém que é fundamental para que meu processo de desconstrução e afirmação como mulher preta seja menos dolorido e mais acolhedor.

Foi um prazer conhecer o íntimo dessas mulheres, foi um prazer começar esse sonho falando sobre Andresa Fernandes, a Deusa Poetisa.

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