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“O rap é o novo rock”?

– do velho Blues às possibilidades do "novo" Rap, via Robert Crumb

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[…]um plano
Por nós e por todo um legado, mano

Rômulo Boca

Por ofício, os comentários que se seguem mereceriam ter uma narrativa bem mais complexa se fosse o caso. No entanto, quero ao menos me ater a analogia desdobrada de uma leitura do que acontece com a música negra brasileira em nossos tempos. E como, em épocas atuais, faço vezes aqui no RND, então o Rap ocupa o centro da análise posto em relação a visão do artista norte-americano Robert Crumb, sobre o Blues, em meados do século 20.

A música “Luzes” do A.L.M.A com o Raffa Moreira, que conta com a produção do beatmaker e Mc mato-grossense Will Diamond, é pra mim um dos singles lançados este ano, entre tantos outros tão relevantes quanto, que pode ter algo a mais a dizer. O Rômulo Boca, o Lucas Félix e o Wendeuz chegam ainda mais pesadamente líricos com toda a presença do Raffa Moreira. O lançamento já foi destaque aqui no RND, mas agora essa faixa volta para indicar e nos colocar uma reflexão mais que necessária neste momento do Rap Br. E é pra refletir sobre a frase do Kayne West, trazida pelo Lucas Félix “o rap é o novo rock ”(?) que este texto ilustra a situação numa analogia histórica e musical do Rap nacional com o Blues estadunidense numa outra época.

Pode até parecer loucura, mas os diagnósticos e impressões de um artista sensível a seu tempo são válidos mesmo após a sua morte, até mesmo, muito mais de 100 anos depois. Excertos de trechos de comentadores e do artista americano Robert Crumb retirados da sua obra Blues (2004) irão compor nosso debate. Assim é que, segundo Rosana Pavan: “Neste livro tão rico de histórias fiéis ao nascimento da nação musical americana, o artista descobre o inconsciente de um país. Ou um país inconsciente, necessitado da música como de um despertador-martelo dos Looney Tunes”.

Para iniciarmos, como uma sirene, sinalizamos que, em nosso caso, o Rap nacional tem sido esse “despertador-martelo” no juízo da juventude. Muito mais que as escolas, que os livros, são as ruas com a violenta sonoplastia de balas e rimas e do improviso contra a morte e o esquecimento que desobstruem as veias dos entupidos bueiros de corações encardidos e cegos à inconsciência histórica, ou simplesmente da existência e da vida “social” dos pobres e pretos no país. Ruas que já há muito tempo através do samba, mas que também há algumas décadas, através do Rap, vem narrar o cotidiano brasileiro em sua crueza e vil realidade, a partir da tragédia racial das margens que circundam a elegia de uma elite, obviamente, avessa e hostil às massas.

Se, como diz Pedro Nava, apesar de tudo “e depois, o artista não está no fim…mas em algum ponto equidistante ao real”, então o presente da música brasileira pode atestar a sentença de Crumb de que: “A arte é uma restauração”. De forma que se o blues restaurou elos entre os escravagistas campos de algodão e a atualidade da memória da espiritualidade negra norte americana no século passado aqui, nas últimas três décadas, o Rap se esforça para contribuir na reestruturação das relações sociais entre as classes e entre indivíduos numa moderna sociedade pós-escravocrata numa contemporaneidade hiper-racializada.

R. Crumb, desta vez polêmico, indica: “Odeio Frank Sinatra. É repulsivo o sentimento dos anos 50 e 60 que exalta esse estilo gângster sofisticado de vida”. O que por um lado é visto no Rap como essa moda do lifestyle gansta, enquanto um modelo de representação a ser reproduzido e exaltado, este poderia ser percebido, por outro lado, no entanto, enquanto uma forma de expressão de uma subjetividade afetada pela ascensão material que o dinheiro, fama e poder podem trazer no caso de sucesso no mercado musical.

Ainda segundo Pavan, sobre Crumb, a autora diz que:  “Seu olhar repousa sobre aqueles descendentes negros por que obviamente, com eles, a verdade musical americana começou (um estrondo de libertação no chiqueiro da casa grande). Mas teria continuado ali? O que importa é a perspectiva. O cenário é seu autor”. Logo, num contexto muito parecido ao brasileiro, entre o blues e o rap, as participações da literatura, como a poesia, e as artes visuais, como grafite ou o cinema, hoje cumprem o papel de forro cultural da criação artística. Nos EUA as obras de Walker Evans, Dorothea Lauge, Russel Lee atuaram através do imagismo e Walt Kelly, Carl Barks e Harvey Kurtzman enquanto escritores e desenhistas, para compor o imaginário social da época .

Se a experiência da arte possa ter algo a ver com “colocar a mente numa linha solitária de trem”, Crumb nos revela que: “eu adoro música, no entanto não sou um grande músico”. De toda sorte, o que em certa medida tentam fazer com o Rap nacional hoje também aconteceu no passado, como nos casos do Blues e Rock estadunidense: “toda essa música antiga foi sendo enterrada debaixo de sucessivas camadas de modas musicais, cada uma sobrepondo a anterior. Essa herança se perdeu, submersa sob a areia do deserto, a exemplo, das cidades perdidas. A cultura moderna é assim. Há também pressão para vender as novidades que aquilo que as precede acaba sendo sepultado sem remorso. Não se ganha dinheiro repetindo as velhas coisas do passado”.

Trecho “uma breve história da américa”, Crumb – 1995 – EUA.

Nas palavras do artista “As artes populares me agradam muito mais, expressões simples da cultura nativa. (…) Mas tudo que foi feito para satisfazer a aristocracia e as classes superiores não tem a qualidade humana bruta que possuem as formas artísticas das classes inferiores. Quando nos aproximamos da época moderna isso não se aplica, já que no geral tudo é tratado por hábeis manipuladores da mídia. Isso já não exprime nada de autêntico voltando bastante no passado, entretanto, torna-se difícil encontrar formas de expressão das pessoas comuns”. E como diz a letra de “Luzes”

Eu vim de baixo, mano
E esses sons eu nunca paguei impulsionamento
Tive um toque na alma que eu devia falar o que tava acontecendo (Skrrr)
Esses caras da cena hip-hop. Não representam o hip-hop (Skrrr)
Pose Quinto Vigia, mas por dentro tipo Lil Wayne, Lollipop

– Raffa Moreira

Pintura – Thomas Hart Benton .

Se, assim como no samba brasileiro, no velho Blues, segundo Crumb, “A música era sem dúvida intensa, o ritmo bem sincopado e o som alto”, o que vale também para o jazz, entre outros. Só que agora, como no rap onde samples, scrachtes, flows, beats e cia estão se transformando cada vez mais rápido e, nem sempre tão criativamente, por vezes, desligando-se de conexões com o mundo de onde emergem, para imaginarem um mundo onde um sem-número de referências sobre o modo como rimam ou sobre esse ou aquele filme, esse ou aquele cineasta é mais interessante para esse ou aquele verso, do que apresentar uma “reflexão”, denúncia ou questionamento para o público.

Pessoas pacíficas vivem em guerra
Os bico joga o jogo, joga o jogo, joga o jogo, joga o jogo
Eu fogo, fogo, fogo, fogo, fogo, fogo, fogo, fogo
Pensando em como tomar a cena
Tentando drenar problemas
Eu vim de baixo, mas lá eu não fico
Me esquivo da inveja e do ódio dos bico
Tocamos alma como em Woodstock
Kanye tava certo, rap é o novo rock
Rap é o novo rock
Eu vim de baixo, rap é o novo rock
Aye, aye 

-Lucas Félix

Acredito que estamos nos olhos de furacões de violentas transformações de uma época. E que para qualquer um ter ideia do que aconteceu ou do que está acontecendo será necessário fazermos assim como Crumb, já que: “Ele percorreu tudo que é fim de mundo e ouviu todos os velhos músicos, velhos violinistas. Disse que teve muita sorte de ter escutado essa música antes que desaparecesse. Escreveu isso em 1936! Ele se deu conta de que ouvia o fim de uma época. Tinha razão, e foi um dos raros que soube que estava vendo algo que se desfazia e logo iria desaparecer. Foi a primeira vez que li o testemunho daquela época vindo de alguém que sabia que tudo estava se desfazendo. Ele diz que os jovens que cresciam nesses lugares afastados eram muito mais impressionados pelo que ouviam no rádio do que pela música tocada por seus pais e avós. Era mais profissional, mais cheio de brilho, era moda”.

Transportando as imagens daquela época para hoje, muita coisa vem se modificando por conta da inter-influência das necessidades do mercado capitalista ocidental ou simplesmente desaparecendo pelo motivo apontado no final do parágrafo acima: a juventude negra inserida num perverso jogo colonial entre racismo e reconhecimento, de alguma maneira, senão estranha, para não dizer no mínimo alienada, abandonam a “música tocada por seus pais e avós”, jongos, sambas, cocos, maracatus, barcas e outras n-manifestações orgânicas da cultura brasileira, formas vernáculas ligadas a expressões rituais, mágicas e espirituais, em troca do vem pelo cd, dvd e hoje quase que de forma massiva, pela internet.

Yeah
Alguém
Quem?
Alguém
Quem pode me ouvir?
Quero sair daqui
Como sair daqui?
Quem pode me ouvir?
Não, não, não, não
Não mais baseado
Tô tão pra baixo
Desorientado
Sem saída
Sem saída

Yeah, Yeah

-Wendeuz

Nessa esteira é que, ao que tudo indica, o Rap e os rappers, assim como beatmakers, grafiteiros e cia. ou seja, todos que compõem e cumprem a cultura Hip Hop em território nacional tem a ver com essa vazão de experiências, não só anti-hierárquicas e de transgressão, mas também de formação e reconstrução social do imaginário da juventude negra acerca de si e do mundo.

Em um outro aspecto, Crumb aponta: “Normalmente, quando as pessoas praticam uma dança moderna mais “livre” eu acho embaraçoso assistir, a música pop moderna sempre me pareceu apocalíptica. Eu ia aos concertos de grupos de rock. A música era ensurdecedora e as pessoas dançavam. Sempre achei que isso parecia o fim do mundo, como se elas dançassem a beira do abismo. Em comparação, a música antiga tem uma ar equilibrado, de uma certa maneira as danças antigas faziam parte de uma vida social que tinha uma continuidade, que mostrava coesão da sociedade. A dança moderna passa a impressão de ser o último passo do mergulho no caos absoluto”. A despeito de qualquer saudosismo, não se pode acusar o artista de puro conservadorismo, para não cairmos em um vão anacronismo, no entanto, sua observação tem ainda algum valor, quando se critica, hoje em dia, a exposição e objetificação do corpo da mulher em alguma medida, por exemplo.

Por outro lado, em um de seus quadrinhos o artista se revela de forma mais íntima e sensivelmente coerente com todo seu ponto de vista, quase antropológico, quando escreve: “As músicas mais antigas e as danças remotas e tradicionais étnicas não exercem o mesmo efeito sobre mim…elas levantam meu espírito e quase sempre dão vontade de dançar também”.

Se de algum modo, seja ao público ou à crítica, resta perceber com “sensibilidade aguçada dos ritmos a morte cultural na música moderna”, assim é preciso também estarmos alerta “porque a música é a alma da cultura humana” e se formos adiante sem “estes ecos do passado… Um mundo perdido, pode apostar…”, então “A perda daquelas tradições musicais antigas e valiosas…Bem, isso corta meu coração”.

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