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Baco e os arcos afro-atlânticos do Rap Nacional: Esú, flecha a flecha

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Para Rodrigo e Dolores, pelas forças.

1ª segunda-feira do mês. Segunda: dia de Exu, Laroiê Bará! Setembro, tempo dos Ibejis – os gêmeos obirins iorubanos – nesta última segunda, conhecemos a primeira parte plano da obra geminada “Esú”, do rapper baiano Baco Exu do Blues. (Um dos arcos afro-atlânticos). Segunda, o mercado se agitou com o lançamento. O Twitter indicou no Top Trends Brasil. E, como uma rajada, a filha de Oiá-Iansã exclama: “– Acorda!”. Eu, sem internet, havia esquecido que era ontem. Pegaram a pauta no grupo. A Redação assina. Sai mais um, depois do suíte do Hugo. A filha de Oyá, como um raio, inaugura a sessão de comentários, traduz a saudação de abertura do disco. E de novo ela fala comigo, isso já depois do meio dia: “– ‘Faixa a Faixa’, pra quinta?” Adaga a adaga, ela devia tá querendo dizer; tanto que só ficou pronto na sexta. Lembram o que disse o KL Jay?

Vou postar esse vídeo porque não quero perder ele Foi um momento muito foda vou ver essa porra a vinda inteira

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As faixas são flechas que quando disparadas estiram setas e instalam pontes entre o Brasil e seu âmago, “indescoberto”, invizibilizado, silenciado por Ele mesmo. Um relâmpago, um jato de forças eletroacústicas no arco-íris negro de sangue entre a Bahia de Todos os Santos e o Golfo do Benin, enfim, entre América & África. É isso. O disco é como um feixe de raios. Um estilete partindo a taça do crânio. Um estilingue armado contra o peito de quem o ausculta e também de quem o prepara. O soldado de um exército inventado, disperso nas ruas e ladeiras da Bahia combatendo os “capitães do mato”. O “Capitão de Areia” se realoja no tempo histórico, quase 100 anos depois de Pedro Bala, do espaço do romance ao Rap, dos jornais à internet.

Antes “literatura”, um século depois: “música”. O arqueiro, em tudo que sintetiza e catapulta – a juventude negra – é, a um só tempo, alvo e algoz. Aponta para o coração da cena que é o seu e de toda uma juventude, a uma só vez, pulsando a vibração do pêndulo – Arte & Mercado – em perpétuos combates. Como a vida, cada vez mais desesperada e capitalista do Antropoceno. A carreira: o trabalho. A concorrência? Procurando atalhos! En tu mira: sucesso e grana|orgulho e fama – autonomia e amor próprio – para si, para os seus, pra rapa! Suicídio, que nada! Depressão é vício, livra-te, ombre, livra-te!

En Tu Mira

A partir de agora será impossível descolar a história do Rap Br da história das religiões afro-brasileiras. E é claro que uma boa pesquisa pelos discos do Rap nacional poderá comprovar essa ambiciosa assertiva contra a intolerância religiosa cada vez mais tão latente no país. Se desde quando a presença da religiosidade periférica marcada pela igreja protestante – “eu admiro os crente”, “ora por nós Pastor”, entre outras – ou a discreta presença de diacríticos afro-religiosos, nunca desbotaram o caráter da gênese eletrônica-espiritual do Hip Hop, no geral, e do Rap, em particular, marcada por ritmos negros como: gospel, blues, rock, jazz, disco, funk, soul e black music. Agora, de algum tempo pra cá, os referentes vem mudando e, em especial, a partir desta segunda, será diferente como nunca.

Não só por cumprir o papel de cruzar as linhas entre o underground e mainstream, além de borrar as fronteiras do Rap nacional postas em torno de regiões geográficas e geopolíticas, Baco, além de incorporar as personalidades dionisíacas e alcoólicas da deidade grega, elevou a um patamar único a presença da ancestralidade africana no cenário Hip Hop Br. Através da confirmação e atualização do arquétipo de um dos orixás mais temidos e respeitados do panteão “iroubaiano” – Exu. Desse modo, não só presente na alcunha que o mesmo atribuiu a si, como no que de fato causou na cena do Rap Br, Diogo Moncorvo, engendrou agências agressivas a um só tempo artísticas e políticas povoando de uma estética arredia e imprevisível o fazer do Mc brasileiro contemporâneo.

Com ponto de partida no corpo, vivão nas festas muito mais próximas dos bailes funk ou shows de heavy metal, o embalo visceral da entidade “Exu, o dono do corpo[1], nos faz chamar atenção para o “bate cabeça”, polissêmico vocábulo tão forte quanto o baque de um dos significados da expressão. Esta, ilustra a força de se tomar a benção ao baba ou a ialorixá, no contexto ritual do candomblé, ou, como quando o que ocorre no momento em que o orixá pega um de seus filhos pelo orí (cabeça) e, ao mesmo tempo em que, pode acontecer no caso de alguns orixás ou os caboclos, em terra, baterem a cabeça com um possível médium, numa espécie de saudação ou forma de despertar o orixá na cabeça de cada um.

Ou seja, pode-se atestar ainda a indicação feita parágrafos acima com a fiel observação de uma série de elementos sendo trabalhados, absorvidos e presentes também em obras de outros nomes da atualidade como Black Alien em “Babylon By Gus”, Emicida – destaque para seu último disco “Sobre Crianças, Quadris e Lições de Casa” – e Criolo – com a faixa “Mariô”, no “Nó na Orelha”, e em outros momentos do “Convoque seu Buda” inclusive ao lado da Juçara Marçal –. Em trabalhos mais recentes, além “Galanga Livre” do manicongo Ricon Sapiência, o Coruja BC1 rimando – “Essa cypher, foi Mãe Iansã que mandou” – nos mostra que essa pode ser uma tendência que venha para ficar. Se “Cada bala de fuzil é uma lágrima de Oxalá”, como rimou Djonga, na faixa que divide com Bk, no seu “Heresia” então, se assim for, vamos nos preparando para a intensificação da Jihad brasileira. Já que na capa do seu álbum, Baco troca Jesus por Esù, o que para muitos cristãos soou como afronta ou até mesmo uma ofensa imperdoável; logo, imaginem o que podemos esperar?

Literalmente “da lama ao caos”, a obra ganha forma e transita do mar de Salvador ao mangue do Recife, do maracatu ao afoxé, passando pelo samba e riffs de guitarra baiana, com vinhetas fortes e ao mesmo tempo conhecidas. O que contribui na identificação do público com os versos bem originais, por sinal, e que com o artifício da repetição – o poeta modernista inglês T. S. Eliot tece elogios a estratégia da repetição na poesia – reforça a intensidade do discurso que reunindo características e agências únicas e provavelmente só encontrável neste “trickster”, que no contexto das religiões afro-brasileira é Exu, e que aqui se revela enquanto Baco e Diogo, ao mesmo tempo.

Nansy Silvvs

Na medida em que em aliança com o beatmaker e produtor, Nansy Silvvs, Baco Exu do Blues emerge dos versos aliado à sua condição de performer ao dar origem e conta a uma espécie de “oralitura”[2]. Nansy atua por meio de uma plástica sonora dinâmica e envolvente que reveste o som do disco de uma musicalidade iniciática na qual a oralidade do Mc, marcada pela invocação de forças ancestrais, em leves traços de devoção, e breves ecos de evocação de atos de transgressão, transfigura-se numa violenta e intempestiva lírica chegando ao ponto em que literatura e música eletrônica, numa curiosa espécie de polifonia polissêmica, respondem de maneira mística, mítica e vulcânica ao equilíbrio às demandas do ritmo e poesia – fundamentos do Rap, como qualquer outro estilo musical.

No livro “Oriki Orixá”, do poeta e ensaísta baiano Antônio Risério (1996), pode-se ler que: “[…] é Exu, o ardiloso Exu, capaz de matar um pássaro ontem com uma pedra que atirou hoje, que ‘supervisiona as atividades do mercado do rei em cada cidade’. […] Exu – “orixá que veio ao mundo munido de um porrete especial, capaz de transportá-lo de um lugar ao outro, e de atrair coisas distantes, feito um poderoso imã), referências ao mercado – e ao porrete – devem ser respeitadas. Não podem ser abolidas” (p.90). O que confirma a aura do disco com mais um bom exemplo: “deuses iorubanos são imor(t)ais: deuses fálicos, deusas voluptuosas, ambos imodestos em suas façanhas sexuais, exemplos plenos de exuberância erótica. E seus cantos celebram franca e enfaticamente esta sensualidade” (p.84). Como a faixa “Te Amo Disgraça”.

Esú”, o álbum, por sua existência, simplesmente, já se configura parte da consubstanciação de algumas das variadas formas tomadas por muitas das revoluções em curso na música brasileira que desdobram-se dos anos 60 pós-Bossa Nova à Tropicália alcançando num alargar do tempo e espaço sonoro brasileiro o Manguebeat, nos anos 90, com o disco “Da Lama ao Caos”, “Chico Science e Nação Zumbi”, e que  a partir dos anos 2000 vão sendo amadurecidas e contemporizadas por expressões como de artistas como “Tom Zé”, “Siba”, “Baiana System” e “Metá Metá” e que agora, após as emergências de “Emicida” e “Criolo”, ganham firmes contornos no Rap a partir de sua interiorização na cena Hip Hop em recrudescimento em trabalhos recentes.

Baco, in home.

Mc, não”! Com a verve de “mestre sala” ao lado das pesquisas de sua musa e “porta bandeiraDjully Badu, Baco faz um carnaval baiano no Rap Br. Sob o efeito das tracks – feitas de rimas sujas sob os arranjos e efeitos que vão do híbrido orgânico-eletrônico ao criativamente elaborado e venenoso trap com a experiência made in Atlanta via Nansy Silvvs que harmoniza e cadencia os flows com acentos sonoros fragmentados e loopings constantes de mixers que atuam em consonância com a força das repetições nas letras compostas de punchlines indomáveis e estrofes selvagens – que confirmam o químico potencial bélico do tão afamado “ano lírico”. O disco do ano (cadê?) é uma arma, é um cano. Um espírito, um fantasma. Uma cama para queimar o carma. Uma cor. Uma carona pela combativa carne, pele e psique de um jovem negro baiano. Uma viagem pelas lentes da visão de um artista que extravasa a vanguarda e busca compreender os atravessamentos entre o mítico e humano, entre um rapper negro classe média e o mundo burguês dos brancos.

Baco e Djully, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador.

Uma obra que tem tudo para ser não só um “clássico” do Rap Nacional, mas, principalmente, agir como um enteógeno para mentes em vigília. Um clássico para a juventude negra regido pelo imaginário de uma epopeia vivida a mais de 500 anos por um povo desterrado. Um clássico por seu devir-épico, mantido por seu sustentáculo na guerra racial, seus bulbos de antídotos contra infernos cotidianos, seu papel rastreador que ramifica as linhas de frente das famílias negras, seu conteúdo transgressor interno ao próprio clã de rappers, qual um afro-samurai que afia sua lâmina com a chuva ácida que se derrama sobre o ódio, a raiva e a vingança em posição de ataque no campo de batalha.

Capa: Arte – Eric Mello | Tipografia – Gabriel Sicuro | Foto – David Campbell

O álbum tem a produção sob o comando de Tas no Cremenow Stúdio, a arte da capa conta com o letrado de Gabriel Sicuro, foto de David Campbel sob a inspiração visual da fotografia de Mario Cravo Neto, além da produção contar com o apoio da  equipe Base071. A obra é um complexo anti-sistema mítico, lírico e musical. Seu discurso: voz veloz e fala afinada, vértice da parábola de uma expressão genuína marcada pela visceralidade explosiva que se expande das entranhas aturdidas de uma consciência atordoada pela “pulsão morte” contida no “princípio de realidade” ao qual se está exposto nas ruas e no cenário em que faz parte.

Um jogo de máscaras percorre as transições entre as faixas – como num rito de passagem, uma iniciação, um ritual de cura, expurgação, invocação e incorporação – permitindo a abertura de um estado anterior de esquecimento, indiferença, depressão ao auto-reconhecimento, ao delírio, a euforia, atravessando a sensação do transe e alcançando o êxtase sob a forma da alegoria da imortalidade como uma fatalidade.

Nansy Sylvvs, Stúdio

Depois de “Nó na Orelha”, parceria bem-sucedida entre o rapper Criolo e o produtor Daniel Ganja Man, “Esú” – dobradinha entre Baco e Nansy – revolve os escombros da música brasileira, no mesmo momento em que chegam nas redes e ruas produções de artistas consagrados como Chico Buarque e Os Tribalistas. O disco é mais um marco cravado pela carreira do jovem artista que ao contar com a participação de KL Jay nos scratches e sampleando inclusive vocais de Mano Brown, chancela a obra com o aval dos seus mais velhos na cena do Hip Hop nacional, os Racionais Mc’s. A experiência internacional de Nansy Silvvs, com a produção de artistas em Atlanta e o suporte de Leo, seu produtor, foram essenciais para a realização do trabalho no qual as rimas e imagens atingem um alto teor combustível, algo como um álcool, incandescente. Um aguardente incendiário disperso num ar etílico – Ecco Homo.

É de toda forma que ao tomar de assalto o “Rap”, ou melhor, essa pequena ponta do iceberg da música brasileira feita no cenário do Hip Hop baiano, em particular, e nacional, de modo mais alargado, é que Baco vai tomando pé e, ainda que aos breques do caminho, mostrando como se pisa firme no chão partir da maneira com que tem buscado contribuir para as transformações da cena. Uma espécie de postura crítica aliada a uma proposta política aplicada às formas de desenvolvimento e expressões orgânicas e eletrônicas da população afro-diaspórica, seja através das artes visuais, literatura, cinema, poesia e música.

“Tive a honra de ter KL Jay aqui em casa ouvindo os sons do cd esú e gravando o estamos vivos” Baco e KL Jay em Salvador.

O disco revela um artista atento não apenas a segmentos ainda não bem observados do cenário, bem como para as peculiaridades e diálogos entre as formas não guetificadas e as expressões próprias de segmentos sociais ainda marginalizados seja pela mídia, pela indústria fonográfica ou pela cena. Encontrando assim, nas fronteiras entre o underground e o mainstream, os hiatos por onde ele é capaz de poder fazer surgir e ecoar letras, leituras e interpretações que colaboram no entendimento e compreensão de experiências que, entre outras, historicamente, compartilhamos. Logo, nossa escuta para o Rap não pode desconsiderar os elementos que se expressam por meio das práticas culturais, políticas e estéticas modernas, no contexto do ocidente contemporâneo, bem como nos referentes das tradições originárias e espirituais ancestrais que os compõem, já que é aí que se encontram as encruzilhadas entre arte, crítica social e tradução cultural.

Baco Exu do Blues – Onze (Prod. 808 Luke). [Pineapple Supply / Brainstorm Estúdio]
Um antigo adágio latino, em um famoso trecho da “Arte Poética“, Horácio diz : “As montanhas estão em trabalho de parto. Nascerá um rato ridículo”. Ao que nos parece, até aqui, esta paráfrase vem para ser desmentida e revelar que o seu contrário é também verdadeiro. Onde a mímica da crítica não alcança, o público se arrebata. E sem querer multiplicar footnotes sobre um álbum tão esperado, procuro qual numa caça, qual Oxotocanxoxo, um Oxóssi que “àmo àwo má rò” (colhe e acolhe segredos) de “àdúrà” (reza), a encontrar e percorrer os caminhos que nos levam a essa misteriosa trilha de forças e afetos, reconhecimentos, disputas e trajetórias até a direção em que se vislumbra essa nova aldeia que aos poucos se cria para o Rap Br, mais ampla e diversa, mais plural e contraditória e, principalmente, sempre um fenômeno sob o signo de uma expansão transformadora, como os velhos Saraus ou os novos Slam’s  ou as Batalhas de Mc’s pelas ruas, sempre em expansão, como o Universo.

Ou, qual a força dum rizoma natural-transcendental (“caosmo”[3]): Terra – Aiyê – sempre devir-Orun, rizoma para o qual Esú é não só referente homônimo a um autor e sua obra, além de orixá e mensageiro de linhas de fuga para agenciamentos espirituais e materiais, mas, algo de incomum, como uma metáfora impronunciável – ora um porta-aviões acústico montado de graves numa armada plataforma sonora que plana disparando traps acesas em chamas de uma dimensão submarina e extra-humana, ora uma constelação de PA’s pululando e amplificando uma atmosfera criativa de uma alienígena poética estação espacial siderada numa galáxia acústica e estética – pós-haroldiana, mas ainda mais que concreta – orbitando em elipses de dimensões e espirais de cosmos dispostos a pousos e decolagens, intersecções e continuidades em algum ponto desconhecido do lado invisível de alguma das Luas de Aruanda – Okê Caboclo, Okê /~^~/ Xetru-á, Xetru-á – via fricção de fronteiras entre linguagens, lifestyles e mundos-além da World Music, Sound System & Hip Hop Culture.

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FAIXA A FAIXA ( Esù, 2017 )

Intro. [part. KL Jay] (Faixa 01)

A locução da narrativa que introduz o disco da Orquestra Afro-Brasileira (1958), liderada pelo maestro Abigail Moura, nos dá as boas-vindas, assim como em uma faixa do grupo pernambucano Chave Mestra. Recife é ao mesmo tempo saudado e evocado, como naquele famoso poema do Manuel Bandeira. Como que se em Salvador a gente estreita-se as distâncias e se encontrasse com as outras pontas, desde o início, só para lembrar que em Pernambuco nasceu Palmares. Com os beats do Scooby e as mãos do mestre e ninja das pick ups KL Jay (Racionais Mc’s) sejam bem-vindos ao divino e maravilhoso mundo de onde emerge uma criação brutal e violenta: assim como da lama (água + terra) de Nanã, da “Argila do divino mangue” Oxalá deu forma a vida através da sopro e da emersão do barro do grandioso “Aquário de Iemanjá”, filha de Olokun. Nascedouro, morada e destino da matéria a terra é submersa nas águas em que se movem, em aventura ou tragédia, sejam a sertaneja Asa Branca ou o ar-aquático Cisne Negro – no asilo da imaginação – se nos apresentando um “universo no seu último cochilo”. As asas de corvo e os ases apostados pelo mensageiro “Negro” começam a sobrar nas mesas de uma perigosa aposta e a bater de frente com os muros de uma atmosfera hostil. Mas como é gostoso poder dizer pra ela: “Sabendo que melhor que sentir o beijo / É a sensação antes de senti-lo”.

Abre Caminho (Faixa 02)

Apesar de ser a Exu que se pede a passagem, Baco parece que também sabe, assim como Exu, ir ao encontro de seu odu, que antes dele passa pelo nascimento de Òsetùá de Akin Osò, filho de Oxum, que foi o primeiro que permitiu que a grande oferenda de todos os orixás chegasse até Olodumaré, num dos primeiros episódios da cosmogonia ioruba. Nesta track ainda existem outros elementos ligados à fatos que se referem há alguma espécie de gênesis, como os sete dias da criação no refrão, entre outros. Destaco a referência explícita ao seu lócus de transformação: o “mangue” musical pernambucano. A faixa revela bem a crossroad de tendências em que está o som do Baco:Não entra na roda punk sem pedir pra Exu/ Não entra no mar sem pedir pra Iemanjá”. O punk, o funk, um rap trap de vinhetas bem vivas forram o tecido sonoro no qual desliza o convite para a obra. Outro assunto é também a relação racializada das mulheres brancas com os homens negros como exposta na letra. Enquanto isso “Meus irmãos são mundos vi vários rodar/Rezo pra que a morte me esqueça/Penso em minha mãe sempre que tentam me matar/Por isso a coroa nunca sai da minha cabeça”. A presença negra em todos os cantos é lembrada como uma referência a heranças reais. O fio sonoro final, um trecho de um samba de Wilson Batista, fecha a conta, dizendo: “eu sou assim, se quiser gostar de mim, eu sou assim”: entre J. Bond e J. Brown, Exu exclama : – “Meu mundo é hoje”.

Oração à Vitória (Faixa 03)

Se alguém chega e larga: “Tipo o oceano, mesmo violento mano, eu pacifico”. Quem acredita? Mas se aí você encontra de um lado, a exaltada e fecunda força feminina do seu ventre sagrado, do seu interior matricial, e, do outro, a sede da criação pela “mão” do homem ao fecundar a terra com fogo, sexo e calor numa cama para o carma. Logo, vê-se o parto do mito e seus filhos, a sorte como a anti-morte pelo álcool e o cigarro. E a cerveja que se derrama depois da vitória, junta-se a fumaça que se queima depois que entre os dedos a vela verde se acende à volúpia das horas mais carnais, escorrendo o gozo pelas paredes, pelo peito valente de quem é o time e ao mesmo tempo torcedor. Bahia! sua vitória é rubro-negra, é afroindígena. Nansy, que fade out e fade in são esses, mano…

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En tu mira (Faixa 4)

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Esù (Faixa 5)

Carrego e oferenda, plêiade e metálico brasão gravado no centro, no núcleo do disco. Olho de Tandera, cratera maior entre vulcânicas poéticas. Um caminhão de referências nas costas dos críticos, nem mesmo Atlas suportaria, Aquiles é atingido no calcanhar, não à toa. Foi cortado o cabelo de Sansão, não em vão. O temor é tema, a maldição emblema. Uma das grandes questões ontológicas e filosóficas da Modernidade ocidental em sua herança pós-helênica, oceânica, é levantada. “Novos Baianos” e aquele Mistério do Planeta by Nansy escalando os sints para fritarem os tímpanos enquanto Baco despeja em disparos tão velozes qual as asas de Hermes em um dos pontos altos do disco. Rosa, Rimbaud e Machado (de Assis e Xangô), Ossanha, Thor e São Jorge… Baco, depois dessa, pode ter certeza que fez jus à alcunha de poeta maldito às épocas de Valery, Mallarmé, Verlaine e Baudelaire que devem estar ligadões nos headphones.

Capitães de Areia (Faixa 6)

Maracatu elétrico e distorções para Erês, Pedros Bala e Macunaímas… Nesse meio tempo, Baco aproveitou e arranhou o céu de vidro da hipocrisia das convenções sociais com espinhos morais. “Eu tô brindando e assistindo/Um homofóbico xenófobo apanhando de/Um gay nordestino/Eu tô rindo/Vendo uma mãe solteira espancando o PM/Que matou seu filho”. Pique cabra da peste, como um bom cangaceiro do Rap, banditismo poético, revolta, caos, violência e vilania, tudo em uma única resposta. Quem apostou no pequeno-burguês comportado se enganou e encontrou um cavalo-do-cão não adestrado, cuspindo fogo contra xenofobia, opressão e genocídio policial. Guitarras – “a baiana e a normal” – são assinadas por Fred Menezes e Gabriel Brandão, respectivamente.

Senhor do Bonfim (Faixa 7)

A foto que acompanha a faixa chama atenção para uma visão de auto-flagelo de uma imagem de um branco no altar. Por outro modo, do lado de cá, com representações de Exu a Oxalá – Senhor do Bonfim no hibridismo cristão/iorubá – Baco fez como num verdadeiro xirê e, alusivamente, como se derramasse um conjunto de quartinhas nas escadarias da “sagrada colina”, enfim, fez uma “lavagem” na cena. “Alguém que nunca sentiu o que eu sinto/Me julga como um pai, em posse do cinto”.

A Pele que Habito (Faixa 8)

Poderia falar do Almodóvar, mas o Nansy Silvvs novamente pede licença e nos dá uma outra aula sobre tempo, divisões e viradas em beats e repetições junto à guitarra de Gabriel Brandão que descarrega a tensão numa sequência de riffs que se destaca. Um arrastar de harmonias que se combinam com atmosfera da letra reflexiva e introspectiva “desde o começo é o mundo contra nós” por que será? Por que somos negros, por que “Somos a África, corpos com fome/Ela grita me come, goza e grita tome/Meta homem/Mas não se emocione/Mas não se emocione”.

Te amo Disgraça (Faixa 9)

A nona vem para ninar você e seu brigadeirx, naquela hora H, na hora de se lambuzar com gosto. Dizer mais seria redundantemente desnecessário. Agora vai lá, x coloca bem alto, bem no alto do tezão, no seu pico de calor, acolhe a quentura delx: “Fudendo no banheiro do bar/Embriagados”, quando a gente passa por isso, cada um sabe bem como é que é. E depois queima, toca, foca na foda, atravessa a úmida paisagem feita de carne e pelos e orgasmos e sorve a seiva que elx derrama, faz uma graça, e depois diz, daquele jeito, vai, vai  e diz “–  Te amo Disgraça!”

Imortais e fatais (Faixa 10)

O instrumental dá novamente o tempo para a expectativa da letra e do flow. Sob a forma de uma insígnia, a imagem do Marquês de Sade se encaixa como uma luva à essa primeira mão do Esú. Um Rap insano e sádico, único e ácido que é capaz de deixar qualquer um adicto. Libidinoso, voluptuoso, entumecido, lubrificado, excitado pelos vapores de prazer da estrada da música brasileira e das ruas de Salvador – “sexo, drogas e rap” – em suas vitrines, virtudes e vitoriosas contradições.

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Sem medidas para o padrão, sem referências no vão do horizonte. Como se diz aqui na Bahia: “quem menos anda, voa!”. Baco Exu do Blues & Nasy Silvvs, voam juntos, com a participação de KL Jay, para em um dos arcos do par de asas que atravessam Atlanta e o Atlântico aterrissarem fatais e, a partir de agora, com “Esú” – imor(t)ais na história do Rap Nacional.

[1] Muniz Sodré.
[2] Olabiyi Yai.
[3] Gilles Deleuze.

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